O Poder Local faz 50 anos e, um pouco por todo o Portugal mais profundo, mais interior, mais distante do mar, multiplicam-se as comemorações. Há programas especiais na televisão e na rádio, cartazes, cerimónias e autarcas empenhados na promoção “do seu território”. E é precisamente a palavra território que desperta curiosidade.
Tornou-se uma espécie de designação oficial para o Portugal que fica longe dos grandes centros. Como se, à medida que nos afastamos das áreas metropolitanas, o país deixasse de ser feito de cidades, vilas e aldeias e passasse, simplesmente, a ser “território”.
No dia 25 de Abril, o Jornal de Notícias fez-se acompanhar de uma revista, edição especial, com uma capa vermelha onde se lia: “Poder Local, quem é quem”. “Poder” em letras pequenas; “LOCAL” em letras grandes e gordas. O grafismo criativo a dizer tudo.
Quase um manifesto.
Ninguém ligou muito aos conteúdos da revista. Alguns terão guardado o exemplar algures, embora poucos se lembrem hoje, se questionados, onde estará a dita revista.
E, no entanto, a revista cumpria escrupulosamente o anunciado. Para além de muita opinião, de elogios aos municípios enquanto “grande motor de investimento” e de uma forte defesa da regionalização, com Pimpão na linha da frente, presidente da Câmara de Pombal e também da Associação Nacional de Municípios Portugueses, havia fotografias para todos os gostos: cultura, património, obras e, naturalmente, muitas caras. Muito gostam os autarcas de fotografias.
No meio de tudo isto, quase discretamente, apareciam umas “estatísticas socioeconómicas” de cada concelho, por distrito.
É talvez nestas páginas que a revista, involuntariamente, se torna verdadeiramente interessante. (vale a pena desfolhar)
Um dos indicadores publicados, o ganho médio mensal, não favorece particularmente o tão proclamado êxito do Poder Local. Sobretudo daquele Poder Local que reside no tão mencionado “território”.
Vejamos o caso de Oliveira do Hospital.
Entre os 17 concelhos do distrito de Coimbra, ocupa o 13.º lugar, com um ganho médio mensal de cerca de 1.110 euros. Merece referência Tábua, vizinho de tão perto, com quase mais 50 euros.
Também não ajuda muito olhar para o lado de Viseu: Carregal do Sal, Nelas e Santa Comba Dão ganham mais. E serve de fraca consolação virar os olhos para a Guarda e constatar que Seia e Gouveia ganham menos. A diferença é pequena e o estar mais perto da Serra da Estrela há muito que deixou de constituir vantagem, no que ao amealhar dos euros diz respeito.
Os números são o que são.
Oliveira do Hospital é hoje um “Local pobrete”, que perdeu uma parte significativa da sua população, que envelhece todos os dias e onde sobra cada vez mais “território” abandonado.
Esta realidade choca de frente com os discursos de loas que se ouvem amiúde sobre o presente e, sobretudo, sobre o futuro, como voltou a acontecer recentemente, no feriado municipal de 7 de Outubro.
E não, não se trata de sermos “pobretes mas alegretes”.
Não há nada de alegrete em ser pobrete. É, aliás, triste.
Talvez, por isso, quando chegarem mais comemorações, valha a pena que os protagonistas do Poder Local, antes de posarem para mais uma fotografia, parem por um instante diante do espelho.
E, já agora, que tenham à mão aquela revista que ninguém sabe muito bem onde guardou.
Podem começar pela página das “estatísticas socioeconómicas” e procurar a coluna de leitura fácil: ganho médio mensal.
É uma fotografia menos apelativa.
Mas talvez seja a que mais importa, para o seu “território”.
Vítor Neves
Gestor









