A tempestade Kristin passou pelo centro de Portugal e deixou sequelas que, à hora a que vos escrevo, na noite de 1 de fevereiro, são ainda incalculáveis. Na noite de quarta para quinta-feira, 28 para 29 de janeiro, ventos de intensidade nunca antes sentida em Portugal arrasaram casas e empresas, ceifaram vidas humanas, deixaram em desconsolo a paisagem que nos lembra, a cada passo, a cada metro, a tragédia que por ali passou.
Nesta hora difícil, têm sido inúmeras, felizmente, as manifestações de solidariedade. Contrastam, malogradamente, com uma reação atabalhoada do Governo e com uma capacidade de prevenção e alerta que, vista a esta distância, nos parece claramente insuficiente, por parte da Proteção Civil e do próprio Instituto Português do Mar e da Atmosfera.
Uma reação, muito partilhada nas redes sociais, que me chamou a atenção, foi o pedido desesperado por parte de um utilizador para que as rádios RFM, Renascença, Cidade FM, Mega Hits, Rádio Comercial e M80 passassem informação sobre o que estava a acontecer, em vez de playlists infindáveis de música e conversas sobre quem estava nos tops – estou a citá-lo.
Chamou-me a atenção esta reação por dois motivos:
1. Pela esperança legítima deste ouvinte que estas rádios, onde a importância que dão à informação é, sejamos diretos, pouquíssima e apenas aquela que a lei obriga que deem, interrompessem a sua programação planeada e calculada ao segundo para fazer o serviço público que a sua concessão obriga. É uma esperança que, com muita pena, eu já não tenho, apesar das obrigações legais que estes operadores, mesmo sendo privados, têm.
2. Pela lembrança, ainda que talvez não percebida de imediato pelo seu ‘emissor’, da falta que faz o jornalismo. Numa época em que muita gente se informa por páginas aleatórias nas redes sociais, os momentos de crise relembram-nos da importância de ter fontes credíveis, que selecionam, filtram e publicam informação de confiança, pela qual as pessoas se possam guiar e tomar decisões corretas, nomeadamente em relação à segurança, a sua, dos seus e da sua comunidade.
Partindo destes dois pontos, entendo que é necessário fazer uma declaração de interesses: sou jornalista do Expresso, como está identificado na assinatura deste artigo, e além de fazer do jornalismo profissão, sou um entusiasta e defensor dos meios de comunicação social locais, colaborando de forma voluntária com a Rádio Boa Nova.
Nos últimos 20 anos, um pouco por todo o país, o Estado e a sociedade civil têm deixado fechar os órgãos de comunicação social locais, em particular as rádios: especialmente importantes em momentos de crise e urgência, porque chegam longe via feixes hertzianos e não dependem da eletricidade: podem ser ouvidas nos carros ou em rádios a pilhas. Não é por acaso que um rádio a pilhas faz parte do kit de emergência que a Comissão Europeia instou os cidadãos a ter em casa.
Contudo, fazer rádio é caro e difícil. Além dos custos de funcionamento, salários, impostos e contribuições inerentes a qualquer negócio, é preciso pagar direitos de autor por toda a música que passa, é preciso pagar a licença de emissão, é preciso cumprir quotas disto e daquilo, pagar a manutenção e a modernização dos equipamentos. É necessário, além disso, ter disponibilidade e capacidade para a última hora, sem descanso.
É por todos esses motivos, também, que em Portugal, as rádios fecham. O Estado não as apoia: há poucas campanhas de publicidade institucional a serem distribuídas pelas rádios locais, não há apoios dignos desse nome, nem sequer para comprar um gerador que garanta que as rádios se mantenham no ar quando são mais necessárias enquanto instrumento de Proteção Civil. Além disso, não há cuidado, por parte das entidades reguladoras, em garantir que todas as frequências locais são efetivamente locais: com trabalhadores e emissões locais.
Em Leiria, uma das cidades mais afetadas pela Kristin, e que é uma capital de distrito, não sobra uma única rádio local ou regional. Rádio Clube de Leiria, Central FM, Rádio Liz, Rádio Comercial de Leiria e 94FM, que outrora emitiam a partir do concelho, têm hoje as suas frequências a servir de retransmissores de M80, Record FM e Rádio Observador. São passado e nunca mais voltam. Esta é uma parte importante de um problema que se tem estudado e ao qual se chamou deserto mediático.
Escusado será dizer que estas rádios nacionais, obrigadas a emitir uma suposta programação local, o fazem com emissões gravadas a partir dos estúdios de Lisboa, e sem qualquer conexão com a realidade dos locais que servem. No dia em que Leiria precisou destas rádios, elas já não estavam lá. Nem serviram para nada.
Mas não é só o Estado que falha. A sociedade civil, empresas e cidadãos, também têm responsabilidade em manter as rádios e os meios locais: porque no dia em que não há internet, não há luz, não vai ser a partilha dos vídeos do Whatsapp que nos vai safar. Nem vão ser os meios nacionais, dirigidas lá longe por quem, fora raras exceções, nunca pensou em mais nada a não ser Lisboa, com redações cada vez mais curtas, a chegar a tempo ou a dar-nos informação que precisemos, à hora a que precisamos dela.
Os incêndios deste agosto, acredito, ajudaram-nos a lembrar isso. A responsabilidade de cada um passa por investir e apoiar: com publicidade, com donativos, com subscrições ou mesmo com trabalho, o jornalismo, em particular o jornalismo local.
E a responsabilidade do jornalismo é estar presente, atento e credível, trabalhando com afinco para ser correto e honesto, mesmo sabendo que a perfeição é impossível, sobretudo em momentos de grande crise.
Ia falar de Santa Bárbara e de quando troveja, mas o padroeiro do jornalismo é São Francisco de Sales. O seu milagre não é uma maravilha física, daquelas que enche o olhar, mas sim a conversão pacífica de cerca de 72.000 calvinistas na região de Chablais, na fronteira franco-suíça, através da sua paciência e caridade, e da comunicação através de folhetos (ora cá está). Diz a Wikipedia que é celebrado por ensinar que a santidade é para todos, incluindo os leigos e não apenas para religiosos.
É como a informação: necessária para todos – mesmo aqueles que teimam em desvalorizá-la, mas um dia se lembram que faz falta e quando procuram por uma frequência, dão conta que já não está lá: 44% dos concelhos portugueses não têm rádio local ou regional de facto. Que não nos aconteça.
Deixo ainda uma nota a fechar este texto: Na quarta-feira (28), o Município de Oliveira do Hospital dirigiu uma mensagem à população, clara e concreta, encerrando escolas preventivamente e dando indicações claras às pessoas para que evitassem saídas e deslocações. Outras instituições locais acabaram por, nas horas seguintes, ir atrás deste exemplo.
As decisões políticas têm um preço: e esta motivou até algumas reações que acusavam a autarquia de excesso de zelo; o acordar do dia de quinta-feira demonstrou que o zelo não foi excessivo, e que a prudência é uma boa conselheira. Aguarda-nos um inverno duro, a chuva que ainda vem por aí vai obrigar-nos a manter esta responsabilidade coletiva em ação.
Autor: Pedro Miguel Coelho *Jornalista do Jornal Expresso













