A minha profissão permite-me, ainda que menos vezes do que gostaria, poder dar espaço às histórias e às tradições que se vivem em Portugal e, em particular, na nossa região. Recentemente, tive oportunidade de acompanhar em reportagem a preparação e, depois, a própria festa do Cambeiro de São João Baptista, na aldeia da Carvalha, aqui no concelho de Oliveira do Hospital. Manda a tradição que, por um dia uma árvore se enche de carne, chouriços e tantos mais ingredientes, para juntar dinheiro para a capela local.
Na aldeia encontrei vários exemplos de espírito de união, de sentimento familiar, mas também uma preocupação comum: toda a alegria que vivemos tem em si a sombra do fim. Ali vivem 40 pessoas, mais coisa menos coisa, e todos temem que um dia não sobre ninguém para continuar a história. Quando uma povoação assim morre, é uma parte de nós que morre também: porque Portugal faz-se destas tradições, desta abertura e partilha; do acolhimento de cada pessoa, venha ela de longe ou de perto, como um novo elemento da família. Porque, hoje, como me disseram, ser da Carvalha é fazer o cambeiro. Ser dali, pertencer lá, só faz sentido neste sentimento tão forte de fazer dos outros aquilo que é nosso.
Na Carvalha encontrei, além das pessoas que lá vivem e que lhe dão alma, muitos forasteiros encantados: de França, dos Países Baixos, do Brasil. Dizem que, de onde vêm, não há nada assim. É possível que não, porque já não há muitos sítios assim neste mundo crescentemente individualista, invejoso e fechado.
Quando perguntei aos mais novos o que faz falta para que mais gente ali viva, as respostas foram parecidas: faltam casas a preços acessíveis, faltam vias de comunicação melhores para encurtar as distâncias, falta emprego devidamente remunerado na região. Mas todos disseram que gostavam que a aldeia tivesse mais gente, sobretudo jovens.
Temos mesmo de ir além de lamentar este triste fado e trabalhar para resolver estas questões: como é que, num país onde há uma média em torno de 14% de casas vazias, e onde as casas a precisarem de obras são quase um terço, de acordo com dados dos últimos Censos, não há medidas que apoiem e incentivem quem quiser comprar casas para as recuperar e habitar? E que estimulem o setor da construção civil? Porque é que tudo o que tem sido anunciado até agora são propostas que contribuem apenas para aumentar o endividamento das famílias e estimular a procura, favorecendo quem mais tem?
Uma das situações que se encontram na Carvalha, e em muitas outras aldeias da nossa região, são casas devolutas, a maioria a precisar de obras, mas que não podem ser habitadas ou usadas porque fazer obras é tão caro e a falta de mão de obra no setor é tal, que é inexequível sequer ponderá-lo.
É um logro achar que esta falta de mão de obra e de meios para construir, reconstruir e reabilitar se vai resolver só com trabalhadores portugueses, e também é puro ilusionismo acreditar que os trabalhadores, portugueses ou estrangeiros, vão aparecer todos formados e especialistas em construção civil de um dia para o outro.
É preciso investir em recrutamento especializado, na formação destas pessoas, na remuneração adequada do seu trabalho, na sua integração no país caso sejam estrangeiros, o que passará pelo ensino da língua e pela garantia de acesso aos meios mais elementares de sobrevivência, como a saúde, a educação e a própria habitação, hoje negados também a muitos nacionais por manifesta insuficiência e ineficiência de gestão.
Portugal tem desesperadamente de repovoar o seu Interior e tem aqui uma oportunidade para o fazer. Com cabeça, com pedagogia, e sem populismos ou facilitismos.
As nossas aldeias, mesmo com pouca gente, continuam cheias de vida e de esperança. Aqui, na Carvalha, manter o Cambeiro é resistência, é luta contra o esquecimento. É responder à angústia com felicidade, ao egoísmo com solidariedade.
Que sejamos capazes de olhar para este exemplo para perceber que este espírito comunitário, de entreajuda e amizade, diz muito mais sobre o que é ser português do que quaisquer discussões e tensões artificiais em torno de uma cultura que, ao longo de séculos, cresceu sempre no intercâmbio e na partilha.
Um esquecimento e um azar com que é bom viver
Na última edição do Folha do Centro identifiquei três jovens do concelho de Oliveira do Hospital que, pelo seu percurso escolar, receberam distinções e que, por isso, deviam ser tidos em conta e ouvidos. Apercebi-me, através de avisos entretanto recebidos, que não referi outras duas jovens de valor e que passo a mencionar.
Maria Salgado recebeu uma das Bolsas Gulbenkian Novos Talentos, que têm como objetivo “detectar e apoiar o talento de estudantes excecionais” e estimular que se iniciem na investigação científica. A Maria, atualmente a estudar Física na Universidade do Porto, conquista esta distinção depois de, ao longo de vários anos, ter também constado nos quadros de mérito escolar em Oliveira do Hospital.
Noutra área, das Artes, Rita Abrantes foi escolhida pela Casa da Moeda, ainda enquanto estagiária, para fazer a moeda da Equipa Olímpica portuguesa em 2024, e teve também mais recentemente a sua criação distinguida pelo voto do público como uma das melhores moedas do ano.
Tenho a certeza que, depois de publicarmos este novo texto, vou ser novamente avisado que me esqueci de alguém. É bom viver com um azar assim, o de ter crescido num concelho com tanto talento, e com tanta gente a trabalhar tão bem que, volta e meia, não nos conseguimos lembrar de todos num só fôlego. Não escondamos o orgulho, e aprendamos com eles.









