É necessário que entendamos, de forma organizada e estruturada, que concelho somos, o que é que temos de único e como o podemos comunicar. E isso não se faz com peças de comunicação desgarradas, sem conceito ou marca bem definidos.
Recentemente, a PORDATA publicou um retrato estatístico resumido dos resultados dos Censos 2021 em Oliveira do Hospital. Há más notícias, e estas escrevem-se do lado habitual, o do despovoamento. Mas também há alguns sinais positivos, e devemos focar-nos nestes para conseguir combater os dados mais negativos e preocupantes.
É fácil repetir pela quinquagésima vez que o Interior está cada vez mais despovoado, que são precisas políticas de fixação de pessoas, que Portugal é centralista. Se acreditamos que há soluções para resolver o problema, devemos chegar-nos à frente. É isso que tento fazer hoje.
População diminui e envelhece
Em Oliveira do Hospital, entre 2011 e 2021, a população residente diminuiu em 1.442 pessoas. É um número que impressiona. É como se, em 10 anos, tivéssemos perdido uma freguesia inteira.
A maior quebra aconteceu na faixa etária entre os 25 e os 64 anos, em que a população reduziu em 974 pessoas, mas não fica por aqui. Há menos 268 jovens entre os 15 e os 24 anos e menos 673 crianças entre os 0 e os 14 anos. Só entre os mais idosos, com mais de 65 anos, a população aumentou – são agora mais 441 do que eram em 2011.
Em simultâneo, aumentou também o número de pessoas que vivem sozinhas – são agora 9,4% do total da população do concelho, um valor que aumenta em 1,8 pontos percentuais nesta década.
E quais são as boas notícias?
São só duas. A população com Ensino Superior no concelho subiu para 12,1%, um aumento de 4,7 pontos percentuais, mesmo num cenário em que a população mais jovem diminuiu.
Além disso, e de acordo com estes dados, 98,2% da habitação em Oliveira do Hospital tem rendas inferiores a 400 euros e houve um aumento de 0,4% no número de edifícios no concelho, que são agora 11.777.
E porque é que são boas notícias?
O aumento das qualificações da população indica-nos que, apesar da quebra na população jovem, aumentou a proporção de pessoas que tem maior nível de formação. Isso apetrecha o concelho de quadros mais qualificados para criar novas soluções, bem como implementar novas ideias e negócios.
A altíssima percentagem de habitação com rendas abaixo dos 400 euros, bem como o aumento do edificado existente, abrem-nos perspetivas interessantes. Ter casa barata em Portugal não é algo que possa ser dado como adquirido, o que se tem agravado em Lisboa e Porto, mas também já noutras cidades médias, e que inviabiliza a instalação dos jovens trabalhadores e das suas famílias nestes locais. E é aqui que entra Oliveira do Hospital. Como é que o nosso concelho pode ser o local que atrai estes profissionais?
A parte boa já a conhecemos nós, que vivemos cá: este é um concelho com qualidade de vida acima da média, com atividade desportiva para todos, em vários níveis, com um património natural rico e belíssimo, com um calendário preenchido de iniciativas culturais e recreativas, dotado de várias infraestruturas críticas, e com aldeias que precisam de ser repovoadas e, perdoem-me a expressão, “revividas”.
Mais do que isso, temos um tecido empresarial vivo e dinâmico, e a implementação progressiva do teletrabalho, que se vive hoje de forma mais intensa nos setores da tecnologia e dos serviços, também abre novo espaço para deslocalizar os locais de residência e novas oportunidades para os territórios do Interior.
Como é que podemos aproveitar as boas notícias e fazer delas ótimas notícias?
Enquanto formos só nós a saber do que temos de bom, isso conta pouco e serve para quase nada. São precisas vias de comunicação e marketing territorial.
A acessibilidade, seja através da conclusão do IC6, seja pela constituição de uma melhor rede de transportes públicos, é primordial para tentar inverter este ciclo. Estamos atrasados e a responsabilidade pelo atraso é clara, e é de sucessivos governos centrais, que nem concluíram a estrada, nem, até há muito pouco tempo, pensaram na rede de transportes públicos, nomeadamente de caminhos de ferro, como fator de desenvolvimento.
Além deste ponto é necessário que entendamos, de forma organizada e estruturada, que concelho somos, o que é que temos de único e como o podemos comunicar. E isso não se faz com peças de comunicação desgarradas, sem conceito ou marca bem definidos.
Que serviços temos? Que emprego podemos oferecer? Quais são as grandes vantagens para quem decida aqui viver? Se tivéssemos só 3 minutos para descrever alguém como é bom viver em Oliveira do Hospital, o que é que diríamos? Temos de definir este guião.
Se, por um lado, temos uma política de eventos bem-sucedida, e que pode contribuir para a construção de algo com maior significado, continua a faltar-nos a definição concreta do que é Oliveira do Hospital enquanto marca.
Felizmente para nós, mas infelizmente para o país, esse continua a ser um problema existente em vários territórios – e nós podemos, e devemos, apressar-nos para aproveitar enquanto tantos estão a deixar escapar a oportunidade. Portugal está no radar e no olho internacional, e nós temos de apanhar esse avião. Ainda estamos a tempo, mas não nos podemos deixar atrasar, porque precisamos de voar.
Desejo a todos os nossos leitores um Feliz Natal, pleno de alegria e amor, e um 2023 cheio de boas oportunidades para agarrar, muita saúde, felicidade e concretização. Obrigado pela companhia.
Pedro Miguel Coelho
Jornalista do “Expresso”

É necessário que entendamos, de forma organizada e estruturada, que concelho somos, o que é que temos de único e como o podemos comunicar. E isso não se faz com peças de comunicação desgarradas, sem conceito ou marca bem definidos.







