Portugal é o país da porta do cavalo. Todos nós conhecemos, sabemos, já fomos beneficiados e prejudicados por esta cultura de favor, de informalidade e de jeitinho. Há pessoas que nem nunca viveram de outra forma. Que nunca resolveram nada na vida sem ser assim.
Nas últimas semanas, poucos dias depois de o primeiro-ministro ter anunciado ao país a sua demissão, foi dado novo balanço a um caso que já se tinha começado a desenrolar antes, mas que, por breves momentos, perdeu a atenção mediática: o caso das gémeas.
Eu já nem sei bem como é que esta história se conta: duas gémeas nascidas no Brasil, e entretanto naturalizadas portuguesas, recorreram ao SNS para um tratamento médico com custos milionários. No desespero para obter essa cura, os pais contactaram com o filho do Presidente da República que, munido de uma poderosa lista de contactos, disparou e-mails um pouco para todo o lado (incluindo ao próprio pai e ao Secretário de Estado da Saúde) a ver se alguém conseguia salvar aquelas meninas. E, entre alguns percalços e trapalhadas, as meninas tiveram o tratamento.
Portugal é o país da porta do cavalo. Todos nós conhecemos, sabemos, já fomos beneficiados e prejudicados por esta cultura de favor, de informalidade e de jeitinho. Há pessoas que nem nunca viveram de outra forma. Que nunca resolveram nada na vida sem ser assim.
Isto é danoso: perverte o funcionamento das instituições, destrói todo e qualquer procedimento ou organização, torna discricionária e injusta a maneira como nos relacionamos com o Estado (e com os privados), mas, mais do que isso, institucionaliza e normaliza uma situação que devia ser tudo menos normal. Aliás, este sistema está tão instituído e tão admitido na nossa vida diária, que chegam a ser mal vistos aqueles que tentam interromper este círculo vicioso, como se fossem eles a estarem errados, demasiado zelosos da correção num país onde se glorifica quem escapa às regras e faz infrações sem ser apanhado, onde se premeia quem é manhoso.
No entanto, este caso das gémeas tem algo de particular: embora profundamente incorreto e revelador de um sistema de mau funcionamento e de errada escala de valores na gestão da coisa pública, não é um caso de corrupção ou tráfico de influências, no sentido em que todas as pessoas que agiram, e de aquilo que sabemos até agora e que continuará em investigação, não o fizeram em benefício próprio, mas sim para conseguir salvar a vida de duas pequenas cidadãs nacionais.
Era preciso salvar aquelas meninas. E foram salvas. O que é errado e perverso é que tantos outros, por distância ou inacessibilidade aos centros de poder, não sejam salvos. Mas o nosso problema não devia ser com um SNS que paga um tratamento a umas meninas devia ser com pagarmos um SNS que deixa muita gente por tratar.
Independentemente das parangonas e do escândalo em que alguns jornalistas tentam montar-se: porque não sabem fazer notícia sem serem eles próprios os protagonistas, valerosos soldados acima da moral de qualquer mero mortal, o problema maior não é terem sido salvas as duas meninas, o problema maior e sobre o qual não se tem discutido, é termos uma cultura em que toda a gente aceitaria que aquilo acontecesse caso fosse com um familiar seu, e termos um Serviço Nacional de Saúde em grito de alerta enquanto a maioria dos seus profissionais querem apenas mais dinheiro para manter tudo na mesma e a maioria dos políticos não tem coragem para apresentar uma solução definitiva que possa evitar que os cidadãos tenham de recorrer aos contactos dos amigos para obter uma cura ou uma salvação.
Por mais eleições que haja, por mais reportagens em tom grave e épico que saiam da boca dos “donos da verdade”, somos mesmo nós que temos de rejeitar de forma clara, enquanto cidadãos, a cultura do “deixa lá ver se te consigo safar”. Porque, no fim, não vai sobrar nada a não ser esta eterna matrioska de casos, em que fechamos um para sacar outros iguais, eternamente, sem soluções à vista, para gáudio daqueles que, sendo semelhantes a todos os outros, procuram disfarçar-se de paladinos da seriedade.
A todos os nossos leitores e amigos desejo umas Boas Festas, e que 2024 seja pleno de saúde, novas ideias, iniciativa e capacidade para abraçar novos e bons desafios.
Pedro Miguel Coelho
Jornalista do “Expresso”










