Há muito que a tradição de rebanhos na familia tinha desaparecido e Edgar, de apenas 19 anos de idade, teve de começar tudo do zero. Mas nem isso o impediu de contrariar um destino que, poucos nos dias de hoje, querem seguir e em pouco mais de um ano, conta já com cerca de meia centena de cabeças de gado, cabras e ovelhas bordaleiras.
“Eu sempre gostei disto, era um sonho que eu tinha desde pequeno” conta o mais jovem pastor do concelho, enquanto “guarda” as ovelhas em Lagares da Beira, onde teima não dar ouvidos aos que não gostam que tenha escolhido esta vida. O sonho de criança foi mais forte e assim que regressou de França com a mãe, em 2020, já não tirou mais as ovelhas da “cabeça”
“Lembro-me desde pequenino de haver aqui um senhor em Lagares que tinha um grande rebanho e ainda hoje tem, e eu lembro-me de o ver passar aqui no meio da vila e aquilo encantava-me, ficava a olhar para aquilo e pensava assim: um dia também vou ter umas ovelhas assim”, revela o jovem pastor que não desistiu de sonhar, tendo começado a comprar as primeiras ovelhas bordaleiras já depois da pandemia.
“Para quem começou por baixo, nunca pensei em tão pouco tempo estar onde estou hoje, está a ser muito bom, mas o objetivo é ir mais longe, é ter pelo menos 150 cabeças”, adianta Egdar Pinto, que quer dar o seu contributo para contrariar a quebra do efetivo de raça bordaleira na região da Serra da Estrela. “Hoje o efetivo anda nas 70 mil cabeças”, diz o pastor, que já se habituou a “não ter sábados, nem domingos” para andar com o rebanho.
“Este não é um trabalho de escritório, aqui temos saber aguentar bem e saber lidar com o clima”, diz, talvez a justificar o facto dos jovens da sua geração, mesmo os filhos e netos de pastores, preferirem seguir outros rumos a ficarem nesta actividade. “Até podem gostar, mas quando são eles a assumir o trabalho e a responsabilidade, e quando os pais já não podem, já não querem e acabam por desistir” observa Egdar, consciente de que é uma exceção e não a regra na região que tenta manter de pé uma tradição e uma actividade tão ancestral como a pastorícia e a produção de queijo Serra da Estrela.
“Todos os trabalhos têm os seus problemas, têm as suas dificuldades, mas num curto prazo este é um produto que vai ser escasso e sendo escasso vai ser mais valorizado” acredita o jovem empreendedor, que é de opinião que devia haver mais ajudas para quem está a começar. “Só para constituir um rebanho, é um investimento muito grande e não é fácil”, garante, apostado apenas na criação de animais da raça autóctone Serra da Estrela, que apesar de “menos rentável”, é “mais adaptada às nossas terras”.
“Comparativamente às outras raças esta aguenta muito mais, é muito mais resistente do que animais que vêm de outros países. Esta ovelha Serra da Estrela já está na nossa região há milhares de anos, introduzirmos outras raças vai alterar tudo”, entende Edgar, que não esconde o “gosto” que sempre teve por estes animais. “Se esta é uma vida para jovens, eu diria que sim, se forem empreendedores e não desistirem à primeira”, refere o pastor, lembrando que esta é uma actividade que obriga a um envolvimento diário, porque são “seres vivos” e “têm vontade própria”.
“Eu saio com eles todos os dias, mas fora isso é preciso fazer muita coisas, a vida do pastor não é estar ali sentado a olhar para as ovelhas”, garante, contando com a ajuda preciosa do velho pastor de Lagares da Beira que se habitou a contemplar desde miúdo. “Ainda hoje quando tenho alguma dúvida é a ele que recorro e também à Ancose que estão sempre dispostos a ajudar”, diz, elogiando a organização de produtores de ovinos Serra da Estrela, com sede em Oliveira do Hospital, pelo apoio e aconselhamento que lhe têm dado desde que iniciou a actividade, acolhendo “bastante bem” os mais jovens criadores de raça bordaleira, responsável, na opinião de Edgar, pela produção do mais “excecional” queijo do mundo: o queijo Serra da estrela.













