Vitor Neves – Gestor
Oliveira do Hospital, sob a batuta de José Carlos Alexandrino, teve o enorme mérito de recuperar a feira do queijo, de a mediatizar a nível nacional e de festejar esta distinta iguaria, com reputação internacional, de forma moderna e atrativa, de tal modo que os concelhos vizinhos, em vez de se associarem, copiaram. Podemos e devemos celebrar, mas não podemos ignorar: o queijo Serra da Estrela, tal como o definimos (DOP) e concebemos está em vias de extinção galopante.
Lembra-se do inesquecível documentário de Jorge Pelicano, superiormente narrado por Fernando Alves, “Ainda Há Pastores?”?
Sempre que chega o tempo de mais uma festa do queijo da serra da estrela em Oliveira do Hospital, apetece-me voltar a ver este muito premiado “Ainda Há Pastores?” – é um banho gelado de realidade. E de verdade.
Há dias, Pedro Couceiro, o grão-mestre da confraria da iguaria, manifestava a sua preocupação com o futuro da atividade, pela falta de rentabilidade, pela burocracia e pela falta de pessoas.
A festa do queijo Serra da Estrela corre o risco de, muito brevemente, poder ser a festa em homenagem ao malogrado queijo: hoje já há pouco, amanhã talvez nem pouco haja.
Em 2006, a data do “filme” do Hermínio, já quase não havia pastores. Hoje há menos.
Em 2023, Pelicano podia fazer uma sequela do seu documento: Ainda Há Queijeiras?
O queijo Serra da Estrela é uma maravilha gastronómica… feminina! São as mulheres, as mulheres de mãos frias, as parteiras icónicas do queijo Serra da Estrela. As mulheres são as protagonistas maiores de um processo ancestral e tradicional de conceção (aqui não se aplica a palavra fabrico) muito pouco sexy e nada apelativo. Não é arte que se ambicione como profissão.
Em Oliveira do Hospital deu-se conta do drama…e ilustrou-se uma rotunda da Cordinha com um monumento dedicado à mulher queijeira, em registo de homenagem!
A Adiram, a Associação das Aldeias de Montanha, apresentou no ano passado, no dia da mulher, um livro com o título “As Guardiãs da Montanha”, também como homenagem e…empoderamento!?!? – É de temer que a montanha se sinta cada vez menos guardada, sem pastores e sem queijeiras.
A região da beira serra, num registo fragmentado que também não ajuda muito, anda há semanas em festas e feiras e, qual hábito, corre-se para Lisboa, para a BTL, recorrendo a figuras “mediáticas” de um determinado somos Portugal, para dar um ar de vida ao queijo e outros produtos “amigos”, ainda fique no ar um ar de passado que passou e de coisa pobre.
Oliveira do Hospital, sob a batuta de José Carlos Alexandrino, teve o enorme mérito de recuperar a feira do queijo, de a mediatizar a nível nacional e de festejar esta distinta iguaria, com reputação internacional, de forma moderna e atrativa, de tal modo que os concelhos vizinhos, em vez de se associarem, copiaram.
Podemos e devemos celebrar, mas não podemos ignorar: o queijo Serra da Estrela, tal como o definimos (DOP) e concebemos está em vias de extinção galopante.
Certo dia, neste espaço, já aqui perguntei: hoje alguém quer ser pastor?
Esta pergunta gera outra: hoje alguma mulher quer ser queijeira?
Importa viver a festa, mas sem o cajado “pão, pão, queijo, queijo”!
Pão sempre teremos, já queijo…









