
Recentemente, numa das minhas frequentes caminhadas noturnas por Oliveira do Hospital, para apanhar ar fresco e “desmoer” as generosas refeições que os meus pais ou a nossa região oferecem, apercebi-me de uma folha colada numa grade, perto da agora antiga escola primária. E naquele A4 em mica plástica dizia que “o Parque da Formiga vai fechar”.
Apercebi-me assim que eu, sem querer, dava por garantido aquele parque, com árvores, espaços de diversão para os mais pequenos, localizado em pleno centro da cidade. Nem sabia, vejam bem, que este sítio era carinhosamente chamado pelo nome da formiga em tamanho gigante que aí se encontra. Quando eu era mais novo, o que havia ali era “a rampa”, e era esse o nome que se dava ao local – entretanto a rampa foi-se, e a formiga tomou o seu lugar. Feito este parêntese, admito-vos que não acreditei à primeira no que aquele papel dizia. Que me perdoe quem teve o trabalho de o escrever e acondicionar, mas, em tempos de desinformação, esperei por melhor informação para tirar conclusões.
E foi assim que, passados uns dias, vim efetivamente a saber, pela Rádio Boa Nova, que esta era uma possibilidade em cima da mesa, tendo em conta o projeto de construção da ESTGOH no centro da cidade – que, mais do que bem-vindo, é muito necessário, como aqui defendi já inúmeras vezes. E, a este propósito, considero que a escola está projetada para o local onde deve ser: potenciando a sua integração, bem como dos estudantes, trabalhadores e investigadores na vida da cidade, e potenciando o seu crescimento como alavanca da economia local. Nesse sentido, valorizo o trabalho do executivo municipal e do Politécnico de Coimbra para conquistarem verbas para estas instalações, que irão elevar e dignificar a escola e a nossa terra.
No entanto, deixemos de lado o elefante, porque hoje estamos aqui para falar da Formiga: adiantado que já foi pelo executivo municipal que estão a ser pensadas alternativas e uma eventual relocalização deste espaço lúdico, gostava de aproveitar este meu espaço para deixar duas ideias que me parecem fundamentais.
– A primeira é que, numa cidade de futuro, um parque infantil se sobrepõe a um parque de estacionamento e, se houver algum destes espaços a ter de ser mais afastado do centro, deveria ser o parque de estacionamento, priorizando assim as deslocações pedonais na cidade e evitando a concentração de mais automóveis nas suas zonas nobres. Caso não estejamos bem recordados, as cidades são feitas de pessoas e não de veículos;
– A segunda é que o desenvolvimento da cidade não pode continuar a fazer-se, em 2024, com sacrifício de zonas verdes e de árvores adultas que fornecem oxigénio e sombra. Por isso, mesmo que por algum motivo que não consigo aqui antever, seja mesmo muito necessário e indispensável ali instalar lugares de estacionamento, é profundamente evitável que isso seja feito com a construção de mais uma planície de alcatrão para juntar a várias que já temos: devem preservar-se as árvores.
Bem a propósito: por estes dias tive a oportunidade de ler, no portal “A Mensagem de Lisboa”, mais um texto da série de investigação ‘Cidades resistentes ao calor’. Os textos, de acesso aberto, dão conta das experiências que têm sido feitas em várias urbes mundiais para combater as ondas de calor. Um dos casos mais recentes aconteceu em Medellín, na Colômbia: a cidade criou corredores verdes e conseguiu uma descida de dois graus centígrados na temperatura. Perante os fenómenos climáticos extremos que temos vivido, particularmente em Portugal, devemos esforçar-nos, enquanto cidadãos, para estacionar mais árvores no nosso espaço público.
E sei que, por vezes, parece que estamos a lutar só por uma coisa pequenina, do nosso quintal, mas se todos tratarmos bem de cada um dos nossos quintais, o mundo fica um jardim bastante mais bem arranjadinho. Andemos, mesmo que com passinhos de formiga, porque depende de nós guiar para que façamos melhor.
Pedro Miguel Coelho
Jornalista









