Voltar à rádio. Como nos velhos tempos?

Há quase dois anos, quando comecei a escrever para o Folha do Centro, quis sublinhar, no meu artigo de estreia, a importância de uma comunicação social local livre e independente. Hoje quero sublinhar o relevo que tem uma comunicação social inovadora, que sabe chegar com a sua marca e os seus conteúdos aos novos formatos e não deixa fugir o público.

Em fevereiro voltei à antena da Rádio Boa Nova, com um pro- grama semanal, às segundas de manhã, logo às 8h, pela fresquinha, para fazer o gosto ao dedo e relembrar os velhos tempos.

Este é apenas o primeiro projeto de tanta coisa que quero fazer, nomeadamente formar uma nova geração de locutores para uma
nova geração de rádio.

Os estudos apontam que o áudio está mais forte que nunca. O relatório “Podcasting Global Market Report 2022” aponta para uma subida anual de 30% nas
receitas anuais em podcasts, ou seja, programas de áudio distri buídos online.

Em Portugal, a minha casa profissional, o Grupo Impresa, tem feito uma aposta forte e sustentada, e é líder no setor, mas outros grupos, nomeadamente aqueles que têm estações de rádio, como o Grupo Renascença, o Observador ou a TSF, estão também com uma presença muito significativa, para a qual recrutam algumas das suas mais importantes “estrelas”.

A nível internacional, o Spotify tem sido uma das empresas que mais tem investido, procurando garantir exclusivos e subscrições a partir daí, e este é um mercado que lhe tem permitido ganhar pontos à concorrente Apple Music.

Mais do que um meio em crescimento e a gerar cada vez mais interesse, o podcast é também um meio democrático – qualquer pessoa com o mínimo de meios de gravação pode editar e publicar um, de forma simples e gratuita.

E são inúmeros os exemplos de podcasts em Portugal, com uma grande base de ouvintes, que são publicados de forma independente, sem nenhuma empresa por detrás.

Em Portugal, a nossa tradição é sobretudo de rádio musical, com pouco espaço para a conversa, e nos podcasts o domínio é da palavra – há sobre tudo: humor, finanças, crimes reais, política, relações, saúde… é só escolher.

Os podcasts mais ouvidos em Portugal chegam a centenas de milhares de ouvintes por episódio, e são companhia em trânsito, tarefas domésticas ou momentos de lazer. Pessoas que estavam rendidas às suas playlists no Spotify, estão a voltar, ainda que de outra forma, à rádio.

Há quase dois anos, quando comecei a escrever para o Folha do Centro, quis sublinhar, no meu artigo de estreia, a importância de uma comunicação social local livre e independente. Hoje quero sublinhar o relevo que tem uma comunicação social inovadora, que sabe chegar com a sua marca e os seus conteúdos aos novos formatos e não deixa fugir o público.

As pessoas continuam a querer ouvir histórias, participar em debates, ou receber informação, mas querem-no fazer à sua maneira e com conforto.
Sou do tempo em que a rádio chegava mais ou menos a 50 quilómetros de distância, e também sou da altura em que, com entusiasmo, recebemos a emissão online.

Agora estamos noutra era: aquela em que podemos ouvir, quando quisermos, onde quisermos, os nossos autores de rádio preferidos. E isso é uma sorte espetacular para a informação local, que pode chegar mais longe do que nunca. Basta querer.

Pedro Miguel Coelho

Jornalista do “Expresso”

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