Verão a gosto

"Saberes que ocupam lugares"

Apreciemos um belo piquenique numa praia fluvial ou num parque de merendas, onde degustaremos certamente iguarias que a todos nos orgulham e agradam.

Verão é sinónimo de festa, de convívio com família e amigos, de ir à praia, ao rio, de estar  mais perto da natureza, atividades estas, por sua vez, sinónimos do mês de agosto.

Esperamos o ano inteiro por esta altura do ano, em que nos sentimos mais descontraídos e predispostos para aproveitar todos os momentos. Claro que somos  diferentes e cada um vive o tempo de férias e de calor a gosto. Mas tratando-se do povo português nenhum momento é vivido sem a alegria da mesa e da comida. E, se alguns preferem a mesa de um restaurante outros não perdem uma oportunidade para fazer um piquenique. Seja qual for a solução, sabemos que não faltarão petiscos ou pratos tradicionais, preparados com muito carinho e produtos locais e sazonais. Esta característica é intrínseca da nossa identidade e é deste modo que vamos construindo e guardando memórias felizes, recordações intercetadas por aromas e sabores que nos fazem viajar.

Mas na azáfama dos nossos dias não temos tempo para pensar sobre como estes hábitos surgiram, como os adaptámos ao nosso estilo de vida.

No que diz respeito a comer ao ar livre é uma prática que acompanha a humanidade desde os seus primórdios.

Nos escritos de Plutarco e de Séneca, bem como do poeta Ovídio, podemos encontrar descrições de eventos muito semelhantes aos nossos piqueniques de hoje. Porém, segundo alguns historiadores, é na Idade Média que a ideia do piquenique como o conhecemos hoje se começou a fundamentar, com banquetes servidos após expedições de caça. Era, portanto, um acontecimento aristocrático que rapidamente a classe média adotou, passando as festas no interior das casas para o espaço exterior , sobretudo, para desfrutar da atmosfera rural. E, em meados do Séc. XIX, os piqueniques eram já populares em todas as classes sociais.

A origem da palavra virá provavelmente do francês e remonta ao Séc. XVII, quando o termo ‘pique-nique’ era usado. ‘Piquer’ (provar), e ‘nique’ – uma pequena quantidade.

Foi, também, em França que terá sido cunhado o termo “restaurante”, nome dado aos estabelecimentos franceses, durante a revolução industrial, que serviam um caldo para “restaurar as forças” aos operários que saíam cedo de suas casas. Obviamente, não seriam espaços como hoje os conhecemos, mas sim tabernas e estalagens, onde a clientela seria o povo, ou cafés, estes últimos mais vocacionados para as classes altas.

A revolução industrial chega a toda a Europa. O ritmo de vida acelera e  a ideia de  lazer começa a surgir. A burguesia ocupa um lugar de cada vez maior destaque. Mais e mais pessoas apreciam o conceito de comer fora, surgem então restaurantes para todas as bolsas e classes sociais,  e tal como nos dias de hoje, não são somente um local para nos alimentarmos mas também um ponto de encontro e socialização.

Por cá, apreciemos um belo piquenique numa praia fluvial ou num parque de merendas, onde degustaremos certamente iguarias que a todos nos orgulham e agradam. Ou, então, desfrutemos de um dos inúmeros restaurantes que nos oferecem belos locais e paisagens, acompanhados por pratos que pertencem ao nosso receituário tradicional, preparados tal e qual como nos recordamos ou em novas versões, que os trazem para o presente.

Viva o verão e o mês de agosto!

Paula Frade

Investigadora Instituto de Estudos de Literatura e Tradição – Universidade NOVA de Lisboa

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