Na nova atualização de dados feita pelo INE, que integra os fluxos migratórios e revela um aumento da população, a população portuguesa aumentou 7,8% face ao que tinha sido registado em 2021 pelos Censos. No caso de Oliveira do Hospital, o aumento foi de mais de 3%, de 19.413 habitantes para 20.047, o que coloca o concelho em valores de população próximos dos que se registavam há quase 15 anos, em 2011 (20.740 habitantes). Apesar do crescimento, o concelho oliveirense continua ainda abaixo dos valores registados no início do século, quando o concelho ultrapassava os 23 mil habitantes. Ou seja, há espaço para melhorar.
Nas campanhas eleitorais autárquicas de 2021 e 2025 foi identificado pelos partidos da oposição, de forma clara, o decréscimo de população como uma fragilidade do concelho de Oliveira do Hospital. Foi ainda apontado este facto como uma evidência do falhanço da política local para a atração de investimento e para a dinamização do mercado empresarial.
Concordo que a tendência progressiva de despovoamento é negativa, não tenho evidências para concordar que seja reflexo de políticas locais, nem para dizer que é um cenário único e anormal para a dimensão do concelho e a sua localização. Acredito também que, para contrariar este tipo de tendência demográfica, tem de existir a nível nacional uma política concreta de coesão territorial e planeamento económico.
Apesar deste crescimento, a idade média da população portuguesa continuou a aumentar, ou seja, estamos mais envelhecidos do que em 2021, e continua a haver uma situação de prático pleno emprego, com vários setores com falta de mão de obra, em particular em áreas fundamentais como a agricultura, a construção civil ou mesmo ofícios como a mecânica, a metalúrgica ou a carpintaria, mas também no atendimento ao público e entregas.
No caso de Oliveira do Hospital, 59,5% da população está em idade ativa, abaixo do 64,3% da média nacional, o que nos indica que é preciso continuar a trabalhar para atrair e fixar jovens. A atração de estrangeiros tem acontecido também do lado do investimento imobiliário, em casas ou propriedades, e em muitos casos de cidadãos europeus já reformados, o que tendo um impacto económico e demográfico que é de valorizar, não se reflete num mercado de trabalho mais dinâmico e capaz.
É importante ainda reforçar que este crescimento não resulta de um aumento da natalidade, que continua reduzida, mas sobretudo dos movimentos migratórios, tal como acontece atualmente em grande parte do país.
Devemos, também por isso, analisar a realidade local num contexto mais amplo. Os problemas demográficos que o país vive hoje não são novos e são sentidos também noutras geografias. Podemos aprender com isso: na Europa cresce a evidência de que a imigração não é apenas uma resposta ao declínio demográfico, mas também um fator de crescimento económico.
O Fórum do Banco Central Europeu tornou público um estudo que conta que “em Espanha, onde o peso dos imigrantes na população adulta subiu 15 pontos percentuais entre 1990 e 2024, o modelo prevê um crescimento adicional de 28% no PIB por trabalhador. Cálculos semelhantes apontam para perto de um terço também no Reino Unido e em Itália”.
Os números, resultado de uma investigação feita em vários países europeus, demonstram a necessidade de uma política de integração e imigração baseada em dados: quais são os setores da economia que precisam de maior reforço? Que tipo de profissionais necessitamos de atrair? Num contexto de competição por talento a nível global, que vantagens temos em relação a outros territórios? Que regiões portuguesas estão em condições de receber mais população? Como é que podemos melhorar e reforçar os serviços públicos para que eles apoiem o crescimento da economia?
Nas nossas aldeias há ainda muitas casas vazias, muitos terrenos por cultivar e/ou explorar. Temos aprendido da pior forma que territórios vazios são territórios vulneráveis e comunidades envelhecidas são comunidades fadadas à solidão.
A notícia, publicada na sexta-feira (3 de julho), que dá conta da saída das contas da Segurança Social de mais de 160 mil imigrantes, pode parecer positiva para quem tenha uma visão redutora e simplista da questão da imigração. Não é uma boa notícia para a economia, não é uma boa notícia para o desenvolvimento do país.
Hoje, quer as entidades públicas, quer as empresas privadas, e até as famílias, já sentem dificuldades para, em vários setores, desenvolverem a sua atividade e iniciativa, devido à falta de pessoas: construir uma casa ou fazer uma obra de recuperação são autênticos quebra-cabeças, só para dar dois exemplos.
Se nos debates em 2021 e 2025, a redução da população era uma má notícia, em 2026 o seu aumento também deve ser reconhecido como uma boa notícia. Os mesmos indicadores usados para criticar o concelho devem ser usados para reconhecer melhorias quando estas existem. E é sempre preferível partir para o futuro com boas notícias.
Os dados demográficos não são o único elemento que merece reflexão. Entre 2011 e 2025, o número de beneficiários do RSI e de pessoas a receber subsídio de desemprego em Oliveira do Hospital diminuiu. Não quero dizer com isto que todos os problemas sociais estão resolvidos ou que o combate à pobreza pode ‘descansar’, mas demonstra-nos uma realidade mais complexa do que aquela que muitas vezes é apresentada no debate público. E lembra-nos que os dados merecem ser analisados com o mesmo rigor quando contradizem as narrativas que tendem a dominar o debate público ou os nossos próprios vieses e preconceitos.
Pedro Miguel Coelho
Jornalista do jornal Expresso
