Hugo Mendes, ou o Secretário de Estado que não sabia que o era

"Factos & Argumentos"

Liderar um país não é falar grosso e responder a picardias com pinta ideológica de esquerda enquanto se impõe um plano de reestruturação que esmaga trabalhadores ou se mantêm no papel, ou a andar muito devagar, políticas de obras públicas na habitação, nas infraestruturas e nos transportes.

Nos últimos dias tem nos entrado por casa adentro, com o ritmo de uma série televisiva daquelas que satirizam as trapalhadas do mundo corporativo, a Comissão Parlamentar de Inquérito da TAP.

Como acontece habitualmente neste tipo de enredos temos personagens-tipo: a CEO ao sabor dos mandos e desmandos de acionistas que um dia querem uma coisa, outro dia querem outra, a administradora posta de lado porque diz coisas que não dão muito jeito, o chairman que ninguém se lembrava que existia… e ainda a figuração de um muito especial representante dos acionistas, até agora muito mencionado, mas para já sem falas no enredo: Hugo Santos Mendes, o ex-secretário de Estado das Infraestruturas que, no fundo, não sabia o que era ser Secretário de Estado.

Esta personagem achava que ser Secretário de Estado era gerir os interesses futuros do Ministro, Pedro Nuno Santos, e lidar com o dossier da transportadora aérea ao sabor dos proveitos que daí podiam advir para a promissora carreira política futura do chefe e, por consequência, também da sua.

Ora, caso estejam esquecidos, e ultimamente há muita gente que parece esquecida, ser membro do Governo ou titular de qualquer cargo eleito pelo povo corresponde à execução do programa eleitoral sufragado e, neste caso, validado pela Assembleia da República. Isto, por maioria de razão, corresponde também a ser representante dos interesses de todas as portugueses e portugueses. Neste caso em particular, portugueses investidos do papel de verdadeiros acionistas da TAP. Sem direito a dividendos ou a bónus, mas com o dever permanente de tapar buracos na empresa, um ativo essencial para o país, mas que hoje é uma companhia de bandeira cada vez mais rasgada.

Voltando ao que nos traz aqui, partilho convosco dois episódios que me deixaram em particular choque, pela pequenez demonstrada. Falo das mensagens trocadas entre o ex-Secretário de Estado e a agora CEO cessante da TAP.

Primeira missiva: a propósito de um voo que teria de ser mudado, afetando centenas de passageiros, clientes da TAP, para manter satisfeito o Presidente da República, descrito nas missivas do governante demitido como um aliado temperamental que poderia, a qualquer momento, tornar-se no “pior pesadelo” da tutela ministerial de Christine.

A maneira como, sem qualquer contemplação do interesse dos clientes e, consequentemente dos interesses da própria companhia, este membro do governo fazia pedidos àquela administradora. Que, relembro, devia ter total independência nas suas funções, e não ter de andar a gerir favorzinhos de qualquer clientela política. Fica patente como este homem, nomeado governante, continuava a achar que era apenas mais um dia a despachar tarefas de caciquismo militante, confundindo uma empresa pública, e por isso de todos os portugueses, com uma qualquer mercearia de sua propriedade.

Segunda missiva: a mensagem em que Hugo Mendes diz à CEO que todas as comunicações da empresa com o governo devem passar pelo Ministério das Infraestruturas, num desrespeito pela autonomia da TAP e da sua gestão, mas também pela própria Lei Orgânica do Governo e as procedências que esta determina, denunciando mecanismos próprios de um ministério que, insatisfeito com a tutela política do chefe do governo ou mesmo do Ministério das Finanças, tentava agir à sua revelia com uma autonomia despropositada. No fim de contas, um episódio que pode unicamente ser caraterizado como deslealdade institucional. E se são assim com os próprios colegas, membros de governo e camaradas de partido… o que sobra de confiança para dar a estas pessoas?

As habituais fontes próximas já vieram dizer que o primeiro-ministro considerava Hugo Mendes inepto. As mesmas contam que António Costa está furioso com Pedro Nuno Santos. E outras há que garantem que, sendo membros do mesmo governo, Costa e Santos não se falavam há meses. Mas Costa, experiente e audaz, aparentemente quis cumprir o velho adágio atribuído a Lao-Tsé, “mantenha os amigos por perto e os inimigos mais perto ainda”.

No entanto, e porque governar com mais tática do que estratégia também tem os seus senãos, a verdade é que o líder do PS e do governo não se livra da responsabilidade de ter sido quem nomeou estas pessoas e as manteve por perto, mesmo quando tudo já indicava ao faro político que sabemos que tem, que alguma coisa ali cheirava mal. E estas coisas dos odores têm o problema de se alastrar… e de agarrar.

É preciso mais do que dotes de astrologia ou modelos de previsão para saber o que vai acontecer ao governo e quanto tempo ainda vai durar, mas não são precisas competências adivinhatórias para que se saiba que Pedro Nuno Santos continua à espreita de um futuro na liderança do Partido Socialista. No atual cenário e, perante o descalabro a que temos assistido, não posso deixar de pensar nesse futuro com preocupação.

Liderar um país não é falar grosso e responder a picardias com pinta ideológica de esquerda enquanto se impõe um plano de reestruturação que esmaga trabalhadores ou se mantêm no papel, ou a andar muito devagar, políticas de obras públicas na habitação, nas infraestruturas e nos transportes.

E ser um estadista não é resolver os obstáculos que surgem à governação como se se tratassem de arranjinhos nos corredores de um congresso partidário, a arregimentar favores para manter barões satisfeitos e segurar a paz podre que nos pode aguentar no trono. E isto aplica-se a membros do governo, mas também a quaisquer outros titulares de cargos públicos: ser um representante do Estado é, necessariamente, algo muito maior que qualquer um de nós. E, felizmente, Portugal também o é, e continuará a ser, para além de quaisquer ismos ou fações partidárias.

Pedro Miguel Coelho

Jornalista do “Expresso”

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