O CDS-PP partiu a coligação com o PSD esta sexta-feira (28) ao início da tarde. A pouco mais de meio ano das Eleições Autárquicas, e interrompendo uma marcha que parecia avançar ligeira para um ato eleitoral sem história, repetição lúgubre de 2021, foram os centristas a criar o primeiro facto político digno de nota desta temporada partidária.
É especialmente relevante esta decisão, pelo que mostra de autonomia e independência. Em primeiro lugar, porque a orientação nacional no partido vai no sentido de priorizar coligações pré-eleitorais com os sociais-democratas; em segundo, porque ela acontece pouco depois de o PSD anunciar o seu cabeça de lista, e na sequência de um período de negociações entre as duas forças políticas que, até há pouco tempo, sabíamos estar a decorrer de forma profícua, com normalidade, e com o CDS-PP bastante avançado nas suas propostas-chave e nos candidatos que queria propor.
A decisão não é isenta de riscos, antes pelo contrário. A aliança com um partido maior dava mais segurança de eleição do que uma candidatura a solo, até por motivos relacionados com o sistema eleitoral.
Para começar: no sufrágio para a Câmara Municipal vence e elege o Presidente da Câmara a candidatura mais votada, mesmo que seja por apenas um voto, pelo que a união de forças é recomendada e vantajosa.
Além disso, numa candidatura em coligação, e tendo em conta que é utilizado o método de Hondt nesta eleição, as regras demonstram que este elege mais candidatos e “aproveita” mais votos de candidaturas maiores, por favorecer maiorias, o que poderia beneficiar o CDS na eleição para a Assembleia Municipal e para o próprio executivo camarário.
Não menos importante: seria mais fácil aos democratas-cristãos assumirem postos em equipas de juntas de freguesia integrando candidaturas de coligação do que tendo de apresentar listas a solo em cada uma das 16 (ou 17) freguesias do concelho.
Mas esta decisão do CDS, podendo ser penosa para os resultados do partido, revela duas coisas que são valerosas em política: coragem e coerência. Coragem porque, mesmo sabendo de todas as desvantagens inerentes a assumir candidatura a solo, o CDS decidiu avançar. E tomou esta decisão em coerência com aquilo que vinha defendendo: sobre o projeto e as pessoas que o poderiam liderar.
Reconheçamos, também, que estas posições foram assumidas de forma clara: Rafael Dias, o líder da concelhia, já tinha feito saber, durante a participação no programa “Vice-Versa”, da Rádio Boa Nova, que não era Francisco Rodrigues o nome pretendido para liderar uma nova candidatura municipal.
No entanto, apesar destas dificuldades, há um fator que joga a favor dos centristas: são, no concelho de Oliveira do Hospital, um partido com muita juventude, com militantes e simpatizantes jovens, muito mais do que as outras forças políticas concelhias e, por isso, mesmo que tenha uma candidatura menos conseguida do ponto de vista dos mandatos conquistados, estará a jogar para o futuro.
A candidatura, a campanha e os momentos de exposição que ela permite farão um favor à projeção e notoriedade dos candidatos e das ideias que defendem, o que será útil na carreira política que ainda estão a começar e que não acontece quando o partido se subsome numa aliança pré-eleitoral. Além disso, reafirmam os valores do partido, e não os trocam por lugares, recuperando iniciativa política e demonstrando que não estão disponíveis para o papel de muleta decorativa.
Resultados podem precipitar derrota do PSD?
Num exercício de memória eleitoral que fizemos em fevereiro de 2022, e que aqui recupero, os números demonstravam-nos que os melhores resultados do PSD ocorreram em coligação com o CDS, nas eleições de 1979 e 1982. Depois disso, os melhores scores laranjas surgem nas eleições de 1985, em que o CDS não concorreu, e em 2005, ato eleitoral em que o CDS teve o seu pior resultado de sempre: 3,7%.
O CDS registou percentagens acima dos 10% em 1989, quando conquistou 12,73% dos votos e pela primeira vez elegeu Adelaide Freixinho como vereadora, que assumiria pelouros no executivo do PS, e em 1993, quando atingiu 14,33% dos votos, novamente com essa figura histórica do partido.
Observando o gráfico é possível chegarmos a uma conclusão simples: o CDS e o PSD somados valem mais votos do que separados, e o crescimento do CDS está normalmente associado a perdas do PSD (e vice-versa) – os resultados máximos do Partido Popular, em 1989 e 1993, correspondem aos piores resultados dos sociais-democratas entre 1976 e 2005, ou seja, em todo o ciclo político antes da perda da Câmara para o PS, altura em que o PSD inicia perdas eleitorais sucessivas até à recuperação de 2021, já em coligação com o CDS.
Se esta tendência se mantiver, e tendo em conta a possibilidade de uma candidatura do Chega, que também disputa espaço à direita, é possível antever um desafio maior para o PSD, mas a verdade é que o perfil dos eleitorados mudou muito nos últimos 20 anos, e a popularidade do executivo municipal não parece estar ao nível estratosférico da primeira e segunda reeleição de José Carlos Alexandrino, pelo que poderá haver ainda uma reserva de eleitores que o PSD e o CDS possam pescar em águas socialistas. Os próximos meses, e o barómetro das ruas, serão decisivos para nos mostrar como se contará essa história.
