António Costa tem de pôr ordem na casa para evitar casualidades

A fragmentação da base eleitoral do PS pode acontecer, e o facto de estarmos neste momento com um sistema partidário mais dividido e dinâmico favorece isso mesmo, mas nada indica que isso já esteja a verificar-se neste momento.

Num fim de semana dedicado aos congressos das federações distritais do Partido Socialista, António Costa apontou baterias à oposição, acusando-a de fazer uma política de “casos e casinhos” por “não perdoarem” a maioria absoluta que os portugueses deram ao governo que lidera.

Nos oito meses desde que começou o terceiro governo Costa, os casos têm-se sucedido. Verdade seja dita, não acredito que o leitor comum consiga enuncia-los a todos, dado que alguns foram tão pífios que serviram apenas para alimentar um ou dois dias de agenda mediática. No entanto, ainda que muitos destes casos não matem, contribuem para moer.

O frenesim em torno de polémicas mais ou menos justificadas tem sido constante e resulta, a meu ver, de duas condições que o favorecem, e que aqui estão reunidas: a primeira é a falta de iniciativa política do governo, que, mesmo tendo uma maioria absoluta, continua a jogar pelo seguro e sem abrir os cordões à bolsa, o que resultou em medidas pouco significativas para combater a verdadeira asfixia financeira sentida pelas famílias, e a segunda é a inexplicável falta de prudência ou cuidado na gestão do dia a dia.

Foco-me nesta segunda, e no seu exemplo mais recente: Miguel Alves, o Secretário de Estado que foi recrutado para fazer a coordenação política do governo, ou seja, para tentar evitar confusões como aquela que aconteceu com Pedro Nuno Santos, após meses de ziguezague e tumulto interno no seio do executivo, acabou por ser ele próprio o causador de nova agitação, e demitiu-se ao fim de 56 dias, num penoso estertor que, apesar deste curto prazo, demorou tempo demais.

Demitiu-se após ter sido constituído arguido num caso em que é acusado de prevaricação, por favorecimento, num negócio feito na altura em que era Presidente da Câmara Municipal de Caminha. Terá favorecido Manuela Couto, esposa de um outro autarca socialista, prestadora de serviços na área da comunicação e já envolvida na Operação Teia.

Antes da fatídica demissão, ainda houve tempo para outro caso: este mais político do que judicial, pelo menos por enquanto. Enquanto edil na vila minhota adiantou 300 mil euros à empresa Green Endogenous para a construção de um Centro de Exposições Transfronteiriço. Negócio já em vias de ser anulado, e com pedido de devolução do montante por parte do Município de Caminha, que é agora dirigido pelo também socialista Rui Lages.

Ultrapassado este resumo, fica a pergunta: como é que a comunicação social conseguiu encontrar e esmiuçar estes casos e ninguém no governo foi capaz de fazer uma verificação dos antecedentes do Secretário de Estado antes de este ser nomeado para o cargo?

É que até podemos concordar que a oposição tem feito uma política de “casos e casinhos”, mas não nos podemos esquecer de quem lhe dá as oportunidades, e têm sido muitas, para que a possa fazer. Ao ataque, mas a jogar politicamente à defesa, o PSD sabe que tem quatro anos pela frente, e que quanto mais desgaste conseguir causar ao aproveitar estes golpes autoinfligidos pelo próprio PS, menos terá de se comprometer com medidas políticas de monta, porque o cansaço com a situação será suficiente para causar alternância.

A maioria absoluta resulta, como bem disse o primeiro-ministro, da confiança que foi dada pelos portugueses ao Partido Socialista. Mais do que resultar dessa confiança, resultou também de uma situação de impasse, após o chumbo do Orçamento do Estado, em que os eleitores procuraram uma solução rápida e estável entre duas alternativas claras de governo.

Ora, a incúria e o desleixo com que o governo tem tratado esta ocasião única que lhe foi proporcionada, com falhas de principiante e excesso de confiança – aparentemente crente na inconsequência de qualquer ação, é absolutamente inconcebível, e ainda o é mais se pensarmos que António Costa é um dos políticos da democracia portuguesa com mais anos no desempenho de cargos executivos, e a esta altura com uma vasta experiência internacional, nacional e até local.

A fragmentação da base eleitoral do PS pode acontecer, e o facto de estarmos neste momento com um sistema partidário mais dividido e dinâmico favorece isso mesmo, mas nada indica que isso já esteja a verificar-se neste momento. No entanto, mais do que a fragmentação da base eleitoral, aquilo a que temos assistido é a um desencanto que parte da sua própria base política – os deputados, os tais que constituem a maioria absoluta de mandatos.

Ainda não vamos em um ano de governação e há mais três anos pela frente com exigências desmedidas e num cenário imprevisível. São precisos organização e planeamento para garantir a previsibilidade possível. À guerra, à inflação, às consequências cada vez mais evidentes das alterações climáticas não precisamos de juntar amadorismo ou indecisão. Ainda falta muito tempo, mas é preciso saber usá-lo.

Pedro Miguel Coelho

Jornalista do “Expresso”

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