A nossa Mãe, Elisabete Fidalgo Álvaro de Campos, nasceu a 13 de julho de 1955, nas Caldas de São Paulo. Viveu com os Pais e a Irmã no concelho de Oliveira do Hospital, até ao fim da Escola Primária e prosseguiu os estudos, primeiro em Seia e depois em Lisboa. Concluiu o Ensino Secundário no Liceu Filipa de Lencastre em 1973 e ingressou no Curso de Farmácia da Universidade de Lisboa, onde escolheu a vertente de Análises Clínicas. Com essa especialidade, acabaria por ter como primeiro emprego, um contrato de trabalho no Laboratório do Hospital do Barreiro.
Dai guardou lindas memórias. Contava-nos, com a mais doce das lembranças, como as funcionárias do laboratório, de proveniência alentejana, lhe traziam raminhos de coentros e hortelã e de como se entristeceram, quando, depois de as convidar para almoçar, no fim da refeição, a nossa Mãe lhes anunciou que viria para Oliveira do Hospital.
Era assim a nossa Mãe: gestos francos, mas discretos.
Convencida pelos nossos Avós, veio para Oliveira do Hospital, em 1980, onde cedo conheceu o nosso Pai, Manuel Lencastre de Campos, com quem casaria em 1981.
Em Oliveira do Hospital, foi empresária a título individual, com cerca de 4 funcionárias, sócia dos Bombeiros e da ARCIAL, cidadã comprometida e atenta, mas sem tempo, nem vontade, nem feitio para atrair atenções.
Aqui, foi Mãe, Filha, Esposa, Nora, Cunhada, Prima, Sobrinha, Tia, Madrinha e Comadre generosa, no tempo e na dádiva permanente.
Se hoje vos leio estas linhas, é porque não quero que seja a doença que a roubou de nós nestes últimos anos a defini-la no dia da sua despedida.
No dia frio e seco de hoje, em que o chão sagrado que recebeu os nossos Avós, receberá a nossa Mãe, recordemo-la na gargalhada, na cantiga desafinada e na anedota mal contada à força de tanto rir, antes de chegar ao fim.
Recordemo-la nos beijos que nos dava e que se ouviam ao longe, na ironia de quem era demasiado inteligente para se agarrar à espuma dos dias e pensava em si e em nós e na vida sempre mais e mais além,…
Lembremo-la nas vezes que nos quis longe, a estudar fora, porque mais importante que a saudade que sentisse, era a oportunidade que nos dava e as pernas que não nos cortava.
Lembremo-la nos gostos literários e cinematográficos ecléticos de quem lia Gunter Grass, com o mesmo interesse com que lia Agata Christie, de quem apreciava Ingmar Bergman, mas não se importava de ver os filmes do Steven Seagal.
Lembremo-la nos banhos de mar em Antilla, nos banhos de Sol salgados, em Santa Cruz.
Lembremo-la na forma como viajava, sem tempo nem interesse por futilidades, aspirando a grandes experiências, como a de atravessar a cordilheira do Atlas numa madrugada ou percorrer o Ilhéu das Rolas, abrigada da chuva, debaixo de uma folha de bananeira.
Lembremo-la no sorriso, no otimismo às vezes difícil de acompanhar, no sentido social inabalável, na sensatez sem mácula, no sentido de humor…
Lembremo-la no exemplo de dedicação extrema à família, na partida tão precoce e dolorosa do nosso Avô, no apoio da agenda sempre tão intensa da nossa Avó, nas centenas de solicitações que as nossas vidas de adolescentes ativos e populares (como ela dizia) lhe colocavam, ao mesmo tempo que geria o Laboratório, uma casa e tantas outras tarefas.
Hoje —o dia em que as lágrimas que engolimos ao longo dos últimos 15 anos-podem enfim sair dos olhos e purificar a dor, lembremo-la plena, feliz, bondosa.
A nossa Betinha, a nossa Mamã.
Aos netos que a conheceram e a visitaram regularmente, mas que a nossa Mãe nunca pode reconhecer, eu e o meu Irmão repetiremos a oração que criámos para nós:
Mesmo que hoje a dor continue a ser insuportável, nós decidimos acolhê-la, como quem acolhe a contrapartida da mais poderosa das bênçãos: a de sermos filhos de um Anjo.
Neste Natal, fechou se um ciclo.
Fez-se o milagre: a nossa Mamã Betinha viverá!
Em nome do meu Pai, em meu nome e em nome do meu Irmão, agradeço a todos os/as familiares e amigos/as, por nos acompanharem nestes últimos anos e pelo conforto dado nestes últimos dias.
Agradeço também à Direção e ao Corpo Técnico da Residência Sénior de Santana, à sua equipa médica e de enfermagem e às suas funcionárias e seus funcionários pelo seu esmero e dedicação.
Endereço uma palavra de gratidão ao Sr. Padre Rodolfo e um muito grato reconhecimento da amizade e generosidade do Sr. Dr. Padre António Borges de Carvalho, por estar connosco neste momento e pelas palavras de conforto que nos endereçou e que nunca esqueceremos.
Muito obrigada.
Penalva de Alva, 26 de dezembro de 2025.
Maria Amélia Álvaro de Campos
Aproveitamos esta Folha para, neste momento de dor, expressarmos a nossa incomensurável gratidão à nossa Tia Dulce Fidalgo Álvaro Pássaro, Irmã adorada de nossa Mãe, cuidadora extremosa, presente e atenta, nestes anos de doença, nossa incondicional Amiga e suporte de força e por tantas outras emoções e razões que não se escrevem.
Muito obrigado, Amélia e Luís.













