Em rápidas pinceladas, o retrato do ato eleitoral deste domingo (18) no concelho de Oliveira do Hospital: vitória expressiva da AD, com 4.534 votos, mais 449 votos face a 2024, seguida pelo PS, que tem 2.867 e perde 820 eleitores. O Chega, em terceiro lugar, conquista 2.049 votos, mais 127 que em 2024. O cenário local é diferente do nacional: é a AD que mais cresce, e passa de 35,38% dos votos para 41,18%, um salto expressivo e maior que o do Chega, que aumenta de 16,65% para 18,61%, aquém do resultado nacional, que ficou acima dos 22,5%. Os socialistas parecem perder votos para os dois maiores concorrentes e até para a abstenção, a cujas fileiras se juntaram mais 536 cidadãos neste sufrágio.
O facto mais disruptivo da noite acaba por ser o resultado do Chega. Ainda que a força liderada por André Ventura não conquiste, em Oliveira do Hospital, um crescimento equivalente ao que acontece noutras zonas do país, podemos dizer que tem um resultado assinalável: nunca uma terceira força política tinha tido tantos votos no concelho. Este é, de resto, um cenário similar ao que aconteceu em todo o distrito de Coimbra, onde ficaram também abaixo da média nacional.
Mas, feito este preâmbulo que nos permite relativizar, de alguma forma, a importância destes resultados, é relevante assinalarmos que o Chega consegue, em Oliveira do Hospital, aumentar votação de forma expressiva mesmo num contexto em que não tem estruturas locais ativas, e depois de vários problemas a nível local que contribuíram para a sua desmobilização depois da candidatura autárquica de 2021. Imaginem o que poderia ter acontecido se essa estrutura concelhia existisse. E isso deve preocupar os dois maiores partidos, embora não em igual medida.
Deve preocupar o Partido Socialista, em primeiro lugar, porque é partido de poder em Oliveira do Hospital há 16 anos e, passado este tempo, parece continuar sem cimentar eleitorado que lhe permita valer mais, aqui no concelho, nos atos eleitorais nacionais do que noutros sítios onde não governa. E isso deve ser, a meu ver, um motivo de desapontamento para as estruturas locais. Estes resultados sugerem-nos, assim, que os votantes que o Partido Socialista conquista nas autárquicas estão ligados, sobretudo, às pessoas que lideram as listas a nível local, muitas delas sem qualquer filiação partidária, e não a uma adesão efetiva dos eleitores oliveirenses ao projeto socialista
Foi, de resto, quando o PS conseguiu levar uma dessas pessoas para a lista das legislativas, José Carlos Alexandrino, em 2022, que conseguiu o seu melhor resultado de sempre. Essa capacidade de ir além dos eleitores do partido é um mérito das listas que o PS tem construído a nível local, mas é também um risco, porque estas vitórias, ao não corresponderem a uma implantação partidária efetiva, acabam por ser potencialmente muito mais voláteis e dependentes de figuras individuais e caraterísticas pessoais. É merecedor de reflexão, no concelho, se a estratégia adotada, com a inclusão de muitos candidatos independentes, não deveria ser acompanhada de um esforço simultâneo para reforço das estruturas partidárias e da sua militância, abrindo o partido a novas pessoas e ideias, reforçando os quadros do PS com cidadãos que, estando disponíveis para serem candidatos pelo partido, não têm ainda filiação partidária, o que poderia facilitar esta consolidação local que, mostram-nos os dados, está muito longe de ser alcançada.
A Aliança Democrática, que se apresenta nestas eleições numa configuração diferente daquela que veremos em Oliveira do Hospital nas Autárquicas de 2025, mostra aqui maior resiliência e capacidade de atração eleitoral do que o PS, apesar de o PSD estar afastado do poder local há muitos anos. E, como já tive oportunidade de escrever anteriormente, embora as eleições nacionais não tenham impacto direto nas locais – ganhar é sempre melhor do que perder.
Os indicadores históricos a nível concelhio revelam-nos que este território já variou entre maiorias eleitorais de direita e de esquerda, mas também nos revelam que as forças de direita foram responsáveis, nas eleições nacionais, pelas maiores “agregações de votos”. Em 2024, as forças de direita somadas tiveram 56,42% dos votos no concelho, que supera com facilidade o melhor resultado da esquerda (54,12% em 2022) e fazem-no sem sequer se aproximarem do melhor score desse flanco político em legislativas. Em 1991, a direita chegou a totalizar 70% dos votos. Em 2025, somando AD, Chega, Iniciativa Liberal e outras forças políticas, o número é de 64,96%, crescimento esse que vem maioritariamente do aumento de votos na coligação do governo.
Essa tendência do eleitorado para, de forma mais fácil, virar à direita, é uma vantagem das forças que compõem a Aliança Democrática, o PSD e o CDS, como ponto de partida para qualquer disputa eleitoral. No entanto, nem por isso a AD fica isenta de preocupações para o futuro: o Chega consegue, sem estruturas ou implantação local, um resultado bastante significativo. Este é, de resto, o maior resultado de sempre de uma terceira força política em Oliveira do Hospital. Se este partido conseguir, como aconteceu noutros territórios, implantar-se aqui, isso vai criar um desafio na liderança do bloco de direita, e essa preocupação é da AD. No concelho como já acontece no país.













