Estamos em confinamento geral há uma semana, embora só desde sexta feira com mais restrições, e continuamos a bater recordes de número de infetados e de mortos. A questão que se impõe, antes de mais, é onde é que vamos parar?
Primeiro temos de perceber que os efeitos de qualquer medida só se podem notar ao fim de uma semana, no mínimo. E nos cuidado intensivos uma a duas semanas depois do início das medidas. Já os óbitos só poderão sentir esse efeito, que pode não ser de redução mas de diminuição do ritmo de aumento, duas a três semanas depois. Depois nem sempre as medidas produzem os resultados desejados. Por um lado, porque podem estar aquém do que seria necessário, por outro lado, porque a adesão ou cumprimento dessas medidas por parte das pessoas em geral, nomeadamente, devido ao desgaste de restrições anteriores, pode reduzir a eficácia esperada das medidas.
Contudo, agora temos outro desafio pela frente, sabemos que estamos com uma nova variante com maior capacidade de contágio, e que está a cada dia a tornar-se mais dominante. Estas medidas podem até nem chegar a surtir o efeito desejado, porque vêm atrasadas e podem não ser suficientemente musculadas para deter o impacto da nova variante.
As suas projeções, bem como de outros especialistas, têm batido certo com a realidade. O que é que tem falhado nas políticas de combate a esta pandemia, sobretudo nesta 3ª vaga?
O que tem falhado, essencialmente, é a estratégia de combate e controlo da epidemia. Têm-se usado uma abordagem de proporcionalidade, ou seja, vai-se aplicando um conjunto de medidas proporcionais à realidade actual dos números. Acontece que os números que olhamos diariamente refletem uma realidade com dias de atraso, algo que já ocorreu há 5 a 7 dias. Não esquecer que o período médio de incubação do vírus é de 5 dias (número de dias que leva desde a infecção até ao aparecimento de sintomas). Um positivo hoje pode corresponder a uma infecção ocorrida há 5 ou mais dias atrás. Para além desta realidade, levamos muito tempo a acreditar no que está a acontecer, pelo que negamos sistematicamente o inegável. E assim, acabamos sempre por adiar, mesmo que temporariamente, o inadiável. Há muitas outras razões que podem tecnicamente ser apontadas, mas esta resume, de uma forma geral, o todo dessas hipotéticas ou reais razões.
As escolas são ou não, na sua opinião, um foco de propagação da pandemia?
Dito nesses termos, ninguém pode afirmar isso nem o contrário. Já que na maior parte dos focos de contágios não são identificadas as suas origens (afirma-se 87% das novas infecções). O que sabemos é que, primeiro, os jovens a partir da adolescência são tão susceptíveis à infecção como os adultos e que eles são também transmissores. Logo a mobilidade diária associadas a cerca de 2 milhões de alunos do 1º ciclo ao universitário implica uma desmultiplicação de contactos, onde, como demonstrámos, há uma elevada prevalência da infecção. Entre 1% a 1.6% dos jovens em idade escolar foram infectados nos últimos 14 dias. E esta realidade, do ponto de vista epidemiológico desta pandemia, é um factor potencial de reprodução da infecção e aumento da incidência a nível nacional. Tudo depende, como olhamos os dados e o que queremos extrair como informação a partir desses dados. E, como temos referido por várias vezes, na incerteza, face a uma ameaça de elevado risco aplicamos o princípio da máxima precaução. Fecham-se as escolas, como outros países o fizeram.
O Governo deve fechá-las já, como parece que vai finalmente acontecer?
À data desta respostas já sabemos que irão ser fechadas.
Este confinamento, ainda que agora com mais restrições, não é compatível com a regressão dos números?
Os dados mostram isso mesmo, o confinamento que tínhamos até ontem (dia 21) não é compatível com a necessidade urgente da regressão dos números. Não o foi em Novembro e Dezembro, não o está a ser agora.
O que é que na sua opinião deve ser feito desde já?
Um confinamento total e integral por um curto período de tempo e o aumento para o dobro ou o triplo na capacidade de rastreio epidemiológico, nomeadamente, na capacidade de realização de inquéritos epidemiológicos. Sem essas duas armas pesadas não conseguiremos trazer rapidamente a incidência para níveis de pré-Natal e depois para níveis de Setembro, de antes do início das aulas. Só assim poderemos regressar aos números de 1000 camas de internamento e 150 camas em UCI.
Preocupa-o a nova variante, que se diz já está em força também em Portugal?
Preocupa-me a mim e a todos os especialistas. Com já referi, a nova variante irá ser a chegada de um tsunami como o que ocorreu depois do sismo de 1755. Depois da 3ª vaga poderemos levar com um tsunami. Esta variante aumenta a carga viral no trato respiratório superior em 32 vezes mais. Isso faz com que ela possa contagiar mais facilmente e em maior quantidade, causando um aumento na incidência que pode ser em média 50% superior ao que temos actualmente. E isso deve preocupar-nos a todos.
Olhando agora para o “nosso” concelho de Oliveira do Hospital, os últimos relatórios apontavam uma ligeira redução da incidência nos últimos 14 dias, mas parece que a curva está outra vez a crescer nestes últimos dias. Confirma esta tendência?
Aparentemente essa ligeira redução faz parte da oscilação, do sobe e desce, do sistema de testagem. Pois, em termos de tendência, o que verifico é um contínuo aumento da incidência, embora menos acelerado, mas sem mostrar sinal de redução.
Nós em Oliveira do Hospital, também passámos de alunos bem comportados, para os pior comportados, não é assim?
Como aconteceu a todos, e tal como ocorreu noutros países como a república Checa. O facto de na primeira fase ter-se conseguido impedir a chegada da epidemia, sabemos da epidemiologia, que isso é uma questão de tempo. Exactamente o que está a acontecer com a nova variante. Sabemos que um dia todos iremos ser infectados pelo vírus, é inevitável. O que podemos fazer é retardar essa evolução, permitindo que o SNS possa manter-se funcional e poder dar apoio a toda e qualquer patologia, permitindo assim um melhor tratamento e recuperação de todos os doentes, e consequentemente, diminuir as fatalidades.
O que é que podemos esperar da evolução da pandemia no concelho?
O que se espera é que as pessoas respondam com responsabilidade melhorando os seus comportamentos, de modo a se reduzirem significativamente os números de contágio. Por outro lado, que estas medidas, juntamente com o fecho das escolas possa travar a progressão da infecção e voltar rapidamente a valores normais, abaixo dos 240 novos infectados nos últimos 14 dias por 100 mil habitantes.
Que apelo é que deixa aos seus conterrâneos nesta fase particularmente critica?
Exactamente isso, maior responsabilidade, solidariedade e respeito pela saúde e pela vida dos outros. Ao protegermo-nos estamos a proteger os nossos e os outros. Cumprir escrupulosamente com as medidas de proteção individual, e obrigar os outros a cumpri-las também. Maior vigilância por parte das autoridades locais, maior cooperação e interajuda. Sozinhos somos vulneráveis, mas juntos conseguimos, e iremos com certeza conseguir.













