Projeto de criação de marca única para a comercialização de alguns produtos locais é a aposta da atual direção para “ultrapassar” problema da dimensão da propriedade nesta região.
A Cooperativa da Beira Central acaba de comemorar 50 anos de existência. Qual tem sido o papel desta instituição no desenvolvimento rural desta região?
Permite acima de tudo aos agricultores desta zona terem um apoio que antes lhes era dado pelos serviços públicos e que foram deixando de existir, e temos uma outra vertente, que é a parte do abastecimento doméstico, digamos assim, que tem um papel até estabilizador de preços dos bens de primeira necessidade. É um serviço que muitas vezes não é visível, mas que é real, porque ao estabelecer um limite nos preços dos produtos já sabe que a concorrência não pode ir muito longe disso.
Estamos à porta de mais uma festa do queijo Serra da Estrela, uma festa que evidencia o trabalho feito nesta área, na agro pecuária. Muitos dos pastores/ produtores de queijo começaram aqui na Cooperativa antes mesmo da fundação da ANCOSE…
Sim, tiveram um primeiro impulso através da Cooperativa, entretanto criou-se uma associação específica só para o setor da ovinicultura, que é a ANCOSE e por isso grande parte dos serviços que eram prestados pela Cooperativa passaram a ser prestados por esta associação. No entanto, estamos conscientes que grande parte da agricultura, com alguma consistência, no concelho é ligada aos ovinos, e aí o nosso papel já não é diretamente ligado aos ovinos, mas mais às forragens que eles comem e à própria comercialização dos produtos. Temos, através do nosso supermercado, facilitado a comercialização do requeijão, do queijo serra da Estrela, dos associados que têm essas explorações.
O que é que na sua opinião podia fazer crescer o investimento no setor agrícola nesta região?
Em termos de projetos de agricultura intensiva de grande dimensão nós não temos muitas hipóteses, porque a nossa propriedade está extremamente dividida, é difícil arranjar uma dimensão que resulte numa exploração de grande escala. E nesse aspeto a nossa agricultura está muito virada para o auto consumo, que é uma atividade muito importante para ajudar a criar raízes às localidades, e permite, embora sem grande significado nos grandes números, ter alguma expressão no consumo do dia a dia das pessoas. Portanto, acima de tudo é preciso gente nova para fazer coisas novas e parece-me que, neste momento, se está a verificar algum interesse nesse aspeto por parte de alguns jovens, isso dá-nos alguma esperança que alguns se fixem e desenvolvam os seus projetos.
Têm falado na possibilidade da Cooperativa lançar uma marca própria que aglutinasse os pequenos produtores desta zona com o objetivo de colocar os seus produtos mais facilmente no mercado. Como é que está esse projeto?
Essa ideia vem no seguimento do que estávamos a falar, de termos na nossa zona pequenas produções limitadas, que esbarram com a dificuldade de comercializar os seus produtos. É um processo complicado, caro, e que cada um por si não tem hipótese de fazer essa comercialização, tem de haver uma entidade que congregue vários produtores e que possa juntar as várias produções de forma a pô-las no mercado com alguma credibilidade. A ideia é arranjar uma estrutura que permita agregar estes pequenos produtores e criar uma marca única para a sua comercialização. Estamos à espera do próximo quadro comunitário para arranjar apoios, porque a Cooperativa só por si não consegue fazer esse investimento, embora já tenha apalavrado com a Câmara Municipal o espaço necessário para avançar com este projeto.
Passa por este projeto o apoio aos agricultores desta região no futuro?
Penso que sim que é uma vertente importante e que pode prestar um bom serviço aos nossos agricultores. Além disso é uma atividade que não tem grande concorrência como outras que se perspetivam …
Está a referir-se ao novo supermercado da Sonae que se vai instalar na cidade?
São concorrentes que têm vantagens enormes em relação a nós e contra as quais é difícil de lutar. Até porque estas grandes superfícies acabam por ter outro tipo de apoios que as pequenas organizações não têm. E a Cooperativa não tem acesso a isso. Isso reflete-se em pequenas coisas. Dou-lhe o exemplo dos sacos de plástico, é um problema real com que as pequenas superfícies se vão debater, porque provavelmente as grandes entidades distribuidoras vão continuar a dar sacos de plástico.
Que mensagem é que gostaria de deixar aos associados em relação ao futuro desta organização?
O futuro destas organizações está sempre dependente do interesse que os seus associados tenham nela. Não é uma organização autónoma, com interesses capitalistas, tem interesse em ajudar os seus associados, mas é preciso que eles a entendam e participem na atividade que lhes proporciona essa ajuda. Nós temos cerca de quatro mil associados, dos quais perto de três mil utilizam as instalações e os serviços da Cooperativa. Mas é preciso mais do que isso, é preciso que vejam esta entidade como uma coisa sua, essa mentalidade é que é difícil de criar. Houve com esta crise que estamos a viver um retorno á filosofia do associativismo e do cooperativismo, mesmo os nossos políticos conheciam pouco estas organizações, e agora andou-se um bocadinho no caminho do reconhecimento do interesse destas entidades, espero que isto também leve a que mais pessoas possam interessar-se pela Cooperativa e vê-la como um parceiro da atividade económica.













