A sessão solene comemorativa do 25 de Abril em Oliveira do Hospital transformou-se num palco de reflexão profunda, onde as celebrações das conquistas da Revolução dos Cravos coexistiram com avisos severos sobre a fragilidade da democracia nos dias de hoje.
O presidente da Câmara Municipal, José Francisco Rolo, classificou a efeméride como a “data maior da nossa democracia” e uma “lição viva da história recente de Portugal”, reforçando a ideia de que “de facto não podemos ser escravos”. Num discurso atento à conjuntura global, o autarca alertou para o crescimento de “discursos de intolerância, de ódio, de xenofobia” e para uma sociedade cada vez mais “vulnerável à mentira e à deturpação dos factos”.
Apesar de reconhecer que os efeitos dos conflitos internacionais se fazem sentir no quotidiano, Rolo garantiu que o município mantém uma “porta aberta” e foca-se na proximidade, defendendo que “é na solidariedade e no respeito mútuo que se constrói uma democracia viva”. No plano das infraestruturas, o edil não esqueceu as reivindicações locais, apontando a conclusão do IC6 como uma prioridade estruturante e uma “dívida com mais de 30 anos que penaliza a atratividade do território”, a par do investimento nas futuras instalações da ESTGOH.
A memória histórica foi também o pilar da intervenção de José Carlos Alexandrino, presidente da Assembleia Municipal, que recordou pilares como o Serviço Nacional de Saúde e o direito à educação como símbolos de um “Portugal melhor”, instando os presentes a assumirem a responsabilidade de deixar um legado superior às próximas gerações.
Esta visão foi complementada pelo testemunho cru de António Campos. O deputado constituinte, convidado de honra, partilhou a sua experiência pessoal de ter sido, durante 37 anos, “escravo da vontade dos ditadores” num país marcado pela fome e pelo analfabetismo. Campos lançou um olhar crítico sobre a modernidade, alertando que a liberdade enfrenta hoje novas ameaças: “Hoje os jovens são vítimas da censura do algoritmo”, afirmou, acusando ainda os partidos políticos de falharem ao “discutirem muito o poder e muito menos os problemas e as sociedades”.
No espectro partidário, as vozes dividiram-se entre a vigilância e a crítica social. João Abreu, da CDU, enalteceu o poder local mas dirigiu duras críticas ao panorama nacional, referindo que “boçais na Assembleia da República mostram, com posturas descaradas e arrogantes, o que nos podia esperar se chegassem ao poder”. “Ao ódio e à intolerância, opomos a ‘Grândola, Vila Morena’, terra da fraternidade”. “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”, afirmou.
Sebastião Barbosa, do CDS-PP/NC – Oliveira, o Motivo, apresentou uma leitura mais pessimista da atualidade, questionando se existem motivos reais para celebrar e caracterizando o país como “fraco, coxo, moribundo e injusto”. Reconhecendo que “o 25 de Abril de 1974 é um dia marcante na história contemporânea de Portugal”, considerou que é “poucas vezes utilizado para perspetivar o futuro”.
Já João Pedro Caseiro, pelo PSD, preferiu sublinhar que, embora o sistema não seja perfeito, “é incomparavelmente melhor do que tínhamos”, apelando a uma luta diária pela liberdade que “não está garantida”. Apelou ainda a uma sociedade “mais tolerante e mais justa”. Considerou também que “o que temos não é perfeito, mas é incomparavelmente melhor do que tínhamos”.
O encerramento simbólico coube à voz da juventude através de Inês Henriques (PS), que sintetizou o espírito da sessão ao afirmar que “poder estar aqui, poder discursar, ter voz, poder discordar — tudo isto é Abril”. A representante socialista terminou com um apelo geracional contra a normalização da intolerância, defendendo que “a melhor homenagem que podemos prestar ao 25 de Abril é nunca aceitar retrocessos”.













