Cara ou caro leitor, escrevo-lhe hoje sobre Eleições Autárquicas, como não podia deixar de ser. Vou fazê-lo em três pontos, com aqueles que considero os factos mais marcantes desta contenda eleitoral.
1 – O PS confirma a hegemonia a nível local, mas não se deve deixar adormecer
O Partido Socialista conquista um marco histórico: é o partido que, a nível local, conquista mais mandatos consecutivos na liderança da Câmara Municipal — são agora cinco, o que em 2029 corresponderá a um ciclo político de 20 anos ininterruptos.
Há agora uma geração de votantes que já não tem lembrança do que era o concelho de Oliveira do Hospital antes da liderança de José Carlos Alexandrino e José Francisco Rolo. Por isso mesmo, é preciso desenhar o que será o futuro dessa liderança, e entender quais serão os projetos estruturantes para esse concelho que já não é o mesmo que o PS encontrou em 2009.
O programa eleitoral que apresentaram dá algumas dessas pistas, mas é importante que, com determinação, este livro de propostas seja um livro de concretizações: particularmente urgentes na prevenção dos incêndios florestais, na modernização do tecido produtivo local e no aumento de eficiência e simplificação dos serviços municipais.
O PS, neste ato eleitoral, perdeu 528 votos para a Câmara Municipal face a 2021, perdeu 289 para a Assembleia Municipal e 230 nas Assembleias de Freguesia. Num contexto de maior competitividade eleitoral, diria que são retrações expectáveis, mas ainda assim, estes números devem ser analisados com seriedade, para perceber do que resultam.
2 – O PSD agrava a sua perda de relevância eleitoral no concelho
No ato eleitoral deste domingo, dia 12, o PSD desce a um score eleitoral de 2.985 votos para a Câmara Municipal de Oliveira do Hospital. Ponho as coisas em perspetiva para facilitar a análise: são só mais 280 do que aqueles que teve em 2013, num cenário que era particularmente desfavorável, por se suceder ao primeiro mandato de José Carlos Alexandrino, e com uma candidata que era desconhecida para a maioria do eleitorado local.
Tendo em conta que, em 2025, tínhamos uma recandidatura de Francisco Rodrigues, acompanhada pelo regresso à política ativa de Mário Alves, a questão da notoriedade dos candidatos não se punha: os eleitores sabem quem são e o que representam. Por isso mesmo, esta é uma derrota que é diretamente atribuível a estes protagonistas. Acredito ainda que devemos acrescentar que a falta de esforço para segurar o CDS a bordo da coligação teve consequências claras.
Destaco ainda que a vitória mais significativa do PSD, na Junta de Freguesia de Lagares da Beira, é feita com um candidato particularmente jovem, com menos de 35 anos, e que se estreou nas lides políticas neste ato eleitoral. Diria que é de comparar as opções feitas para a Câmara, para a Assembleia Municipal e para esta Assembleia de Freguesia. E tirar conclusões.
Ah, e não me queria esquecer: o PSD, o principal partido da oposição, deu-se ao luxo de, pela segunda eleição consecutiva, nem sequer apresentar programa eleitoral para o concelho.
3 – A coligação ‘Oliveira, O Motivo’ terá roubado eleitores a todos
Num exercício de aritmética simples, e fazendo a comparação direta com as últimas eleições, podemos ver que o PSD perde 1.039 votos face ao que tinha conquistado em coligação com o CDS, o PS perde 529 em relação a 2021, o Chega reduz 39 e a CDU vê-lhe subtraídos 100 votos.
O total de votos da coligação entre o CDS-PP e o NC é de 1.907, ou seja, potencialmente retirou eleitores a todos e ainda foi buscar alguns eleitores que não participaram anteriormente, num cenário em que a participação aumentou em 100 eleitores face a 2021.
Ultrapassando o quebra-cabeças matemático, podemos dizer que este é um sinal positivo para este projeto político, que se destacou com uma campanha irreverente e muito alicerçada nas redes sociais. Contudo, ficou ainda a nove pontos percentuais do PSD e vai precisar de mais do que aquilo que apresentou desta vez para deixar essa posição.
Noto ainda, e sem querer parecer que estou a dar conselhos a ninguém, que não me pareceu avisado o registo triunfalista da noite eleitoral, quando o cabeça de lista da candidatura que, recordemos, ficou em terceiro lugar, não conseguiu tirar 10 segundos para dirigir os parabéns ao vencedor que, olhando novamente para os números, teve o triplo de votos da coligação.
4 – Uma campanha que… upa, upa!
Antes de fechar este texto, quero deixar mais uma nota em particular, e adianto desde já que esta é uma nota mais pessoal do que propriamente de análise.
A campanha feita pelo movimento independente Unidos Por Alvoco (UPA) juntou várias coisas que valorizo muito – foi uma campanha pela positiva, com propostas e uma visão clara, e foi uma campanha de futuro, com presença online e offline, procurando chegar a todos os eleitores com soluções e ideias práticas para resolver os problemas deles, mas sem nunca os menorizar ou infantilizar.
O resultado, o terceiro lugar, numa luta taco-a-taco numa freguesia que continua a ser um fervilhante centro de discussão política, terá deixado os elementos desta lista dececionados, mas a humildade com que aceitaram o resultado e se mostraram determinados a continuar a trabalhar pela sua comunidade, são um exemplo de fair play democrático de uma candidatura que foi formada há poucos meses e, ainda assim, conquistou mais de 25% dos votos.
Tenho a felicidade de, nesta freguesia, como em muitas outras, ter amigos em todas as listas. Esper que os amigos que tenho nas outras duas listas me perdoem, no entanto, fazer esta saudação, democrática e sincera, de um trabalho que considerei que deixou muitos bons exemplos para fazer melhor e comunicar melhor no concelho de Oliveira do Hospital.
A todos os eleitos, de todas as listas sem exceção, deixo os votos de um ótimo mandato. O sucesso do vosso desempenho será a felicidade de todos os cidadãos e habitantes deste território.
