Nove anos depois, Carlos Conceição ainda carrega as marcas do incêndio: “Olho para o corpo, parece um mapa”

No dia 15 de outubro de 2017, Carlos Conceição saiu de casa, em Avô, para ir buscar um trator a uma quinta. O incêndio ainda estava a mais de um quilómetro de distância e nada fazia prever que, em poucos minutos, a sua vida estaria em risco. Nove anos depois, recorda o dia em que escapou às chamas, mas ficou com queimaduras em 60% do corpo.

“Cinco minutos foi, sinto um barulho, viro-me para trás, uma língua de fogo nas minhas costas bate lá no muro”, recorda Carlos Conceição, que, perante a aproximação das chamas e a falta de visibilidade provocada pelo fumo, decidiu regressar.

“Como já aquilo criou-se ali uma névoa de fumo que não se via nada, voltei para trás”, conta.

O incêndio propagava-se a uma velocidade que não imaginava. Carlos Conceição acreditava que teria tempo para ir à quinta, tratar do que tinha a fazer e regressar a casa. “Pelas contas que eu levava, é que eu tinha tempo de ir à quinta, fazer o que ia para fazer, e vim para casa”, explica. Mas a realidade foi bem diferente. “Aquilo vinha com uma dimensão, aquilo que era uma coisa maluca”, recorda.

Depois de escapar à primeira aproximação das chamas, Carlos Conceição regressou a casa, onde ainda tentou proteger a habitação com uma mangueira. Só mais tarde percebeu a gravidade das lesões que tinha sofrido.

“Eu não tive a percepção disso que estava acontecendo”, relata, explicando que, no momento, apenas reparou que as unhas de dois dedos da mão esquerda estavam a sair. As queimaduras, contudo, eram muito mais extensas.

A ajuda demorou a chegar. A ambulância que se deslocava para o socorrer acabou por ser atingida pelo incêndio, deixando-o à espera durante a noite. Só no dia seguinte foi assistido por uma ambulância da Cruz Vermelha, depois de alguém ter alertado para a sua situação.

Carlos Conceição acabaria por ser transportado para uma tenda de campanha em Oliveira do Hospital e, posteriormente, transferido de helicóptero para o Hospital de São José, em Lisboa, onde permaneceu sete meses internado, na unidade de queimados.

Foram meses particularmente difíceis, também pela perda de autonomia. Sem os óculos e com os braços muito afetados, não conseguia ver a comida que lhe colocavam à frente. Nesse período, contou com o apoio do genro, que trabalhava perto do hospital e que, sempre que possível, lhe levava as refeições.

Após a alta, permaneceu mais dois meses em casa da filha, em Lisboa, onde recebeu cuidados de enfermagem duas vezes por semana. Regressou depois a Oliveira do Hospital para continuar os tratamentos.

Nove anos depois, as marcas do incêndio continuam bem visíveis. As cicatrizes acompanham-no no dia a dia e recordam-lhe a violência das chamas.

“O gajo olha para as pernas, parece um mapa. Olha para o corpo, parece um mapa”, descreve, referindo-se às marcas que ficaram das queimaduras.

Apesar da recuperação, as lesões não desapareceram. “As coisas dos braços já lá vão nove anos e as marcas ainda continuam”, sublinha.

A recuperação física foi longa, mas Carlos Conceição destaca também a forma como procurou enfrentar a doença. “Eu tive sempre uma coisa boa, eu nunca me entreguei muito às doenças”, afirma. “Eu levo aquilo quase numa desportiva, porque se fosse a pensar nisso, se calhar já tinha morrido”, acrescenta, explicando que tentou sempre encarar as dificuldades da melhor maneira possível.

A passagem do tempo não apagou a memória daquele dia. Para Carlos Conceição, recordar o incêndio é também lembrar quem não conseguiu sobreviver.

“Estar cá é muito bom e contar a história, mas fica sempre marcado e um indivíduo recorda sempre mais aqueles que, infelizmente, não estão cá para contar a história e ficaram lá no meio do fogo”, afirma.

O sobrevivente reconhece que a experiência lhe deixou uma marca profunda, não apenas pelas consequências físicas, mas também pela consciência da rapidez com que tudo aconteceu. Até então, apesar dos incêndios que já tinham atingido a região, nunca imaginara uma situação daquela dimensão.

“Muitos incêndios que houve por aqui, muitas coisas, mas nunca, nunca houve ideia de uma coisa assim”, recorda.

Nove anos depois, Carlos Conceição continua a viver com as marcas do incêndio de 15 de outubro de 2017, mas também com a possibilidade de contar a sua história. Uma história de sofrimento, recuperação e sobrevivência, que mantém viva a memória de um dos dias mais marcantes da região.

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