Jornalista Pedro Miguel Coelho exaltou “orgulho” oliveirense e “pediu mais Abril” nas comemorações dos 51 anos da Revolução

Trabalha no Expresso, é colaborador do Folha do Centro e da Rádio Boa Nova e foi o convidado especial da sessão solene comemorativa do 25 de Abril em Oliveira do Hospital

 

Sempre quis ser uma pessoa do concelho de Oliveira do Hospital, como o próprio afirmou, e como se já não o tivesse provado, no passado dia 25 de Abril deixou isso bem vincado numa intervenção que tocou a todos os que o escutavam no salão nobre dos Paços do Município, durante a sessão solene comemorativa do Dia que considerou também “o  mais importante e definidor da nossa história”, que nasceu para que “fôssemos livres e tivéssemos o direito de sermos o que quisermos ser”. 

Pedro Miguel Coelho falava com o coração do “orgulho” em ser oliveirense, dos que vão à luta, dos que nunca desistem perante as dificuldades ou adversidades, para fazer a ligação com Abril, e com os princípios de uma Revolução que, 51 anos depois, precisam de “constante luta e reinvenção”. 

A começar por sublinhar “as qualidades e (os poucos defeitos)que temos enquanto oliveirenses”, apontou uma que “para mim sobressaiu sempre: Nós lutamos”, e “não nos resignamos, não nos entregamos à tristeza, não ficamos quietos perante a desgraça que nos vítima”.

“Em 2017, por exemplo, quando parecia que nos tinham queimado para sempre, renascemos. Com vigor, fulgor e esperança”, recordou, “inspirado” por um  Abril e por um concelho em permanente construção pelas suas gentes com “vontade de ferro”.

Da arte de produzir os melhores fatos do mundo, ao labor dos pastores e queijeiras que produzem o queijo que é “nosso”, o jornalista oliveirense evocou ainda o  “empreendedorismo e a garra” de quem “investe neste território mesmo sabendo que há dificuldades à partida” , nomeadamente o eterno problema das acessibilidades e das vias de comunicação.

Produto desta “fibra” oliveirense, Pedro Coelho lembra, porém, que perante as dificuldades ainda “há quem tente convidar-nos a deitar fora tudo o que conquistámos nestes 51 anos: como se tivéssemos ido longe demais nos direitos, liberdades e garantias”, e acredita que as soluções para os problemas “não é querer menos”, mas sim “lutar mais” por “mais Abril”. 

“Devemos ser mais ambiciosos, sem medo de querermos, sem medo de sonharmos”, afirmou, referindo – se, nomeadamente, ao Serviço Nacional de Saúde “para que ninguém ande aflito à procura de uma consulta de especialidade que só consegue a uma hora de distância, ou pagando mais do que pode. Para que nenhuma pessoa fique durante anos sem médico de família”.

E “devemos querer mais. Querer mais Abril”, também no campo da habitação, sublinhou ainda o jovem jornalista, para quem neste dia “há milhões de jovens portugueses que continuam sem conseguir fazer contas à vida para arrendar ou comprar uma casa. 

A Constituição de Abril diz que “todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar”. Não é exigir muito. Diria que é esperar o mínimo. E por isso, não podemos esperar menos, temos de querer mais: para podermos fixar jovens aqui, para podermos dar-lhes esperança de construírem um futuro e uma vida familiar aqui”, continuou. 

Pedro Miguel Coelho não esqueceu também o “pulo” que Portugal deu, nestes 51 anos, na educação e nas qualificações. 

“Eu ainda sou do tempo em que se dizia que 18 anos de escolaridade obrigatória era demais, e que havia quem não tivesse sido feito para a escola, como se algumas pessoas, pela sua origem, ou pela riqueza que os pais tinham, tivessem de ser obrigadas a ir trabalhar o mais rápido possível. Ainda bem que esse tempo acabou”, observou, lembrando que “chegar ao Ensino Superior, que hoje já começa a ser uma realidade para muita gente, era um privilégio acessível a poucos”.

“No entanto, muitas destas famílias só mesmo nos últimos anos é que viram os seus filhos e netos a chegar pela primeira vez à Universidade. E com dificuldade. Muitos, para conseguirem estudar o que querem, fazem das tripas coração, perante uma rede de instituições de ensino superior que é nacional e que assume a ambição de querer atrair estudantes de todas as zonas do país, mas não investiu condignamente em residências de estudantes e noutras infraestruturas de apoio social. Perante isto: devemos pedir menos? Devemos exigir menos? Não. Porque ainda há muito por fazer… o que queremos é mais Abril”, referiu, não apenas com o intuito de fazer um RX aos problemas e “pedir mais” , mas contribuir para “estar do lado da solução” e “fazer mais” . 

“Se a associação da nossa terra precisa, se a comissão de festas não tem gente, se o clube não tem direção, se a junta de freguesia podia trabalhar melhor, vamos só ficar a comentar? Ou vamos cumprir Abril e agir?” questionou quem o escutava, falando do seu exemplo de como em” Oliveira do Hospital, desde tenra idade, aprendi que para sermos respeitados, não basta falarmos, é preciso fazermos. Não nos iludamos: há quem ganhe fama a falar, mas o valor de cada um de nós, do nosso país e nação, estará sempre no que conseguirmos concretizar”.

“A cada dia, querermos mais, não nos contentarmos com menos, inspirarmos cada um dos nossos amigos, dos nossos concidadãos, a fazer mais”, disse, numa intervenção em que não esqueceu a “grandeza histórica” de uma nação que, 51 anos depois do 25 de Abril, deve continuar a materializar-se no “inconformismo que formos capazes de manter hoje. De continuarmos a fazer muito com pouco”, de sermos os inventores de um dos mais belos conceitos do mundo – o desenrasque”.

“E termos sido capazes de o transmitir a outros povos, noutras latitudes, onde também lhe chamam o “jeitinho”. E de usarmos esse jeitinho para formarmos alguns dos mais capazes humanos que hoje vivem no mundo, produzirmos inovações que transformam a maneira como vivemos, e sermos reconhecidos em toda a parte pela maneira especial e autêntica como recebemos quem decide visitar-nos ou fica a viver no nosso país”.

“Aqui em Oliveira do Hospital, temos connosco uma história feita de grandes pessoas. Não de individualidades, famosos ou celebridades, mas de boas e grandes pessoas”, notou ainda o conhecido jornalista, que assumiu, do princípio ao fim, “o orgulho” oliveirense, o mesmo que nos deve a impelir lutar por mais e a “querer mais”, reiterou. 

“Não podemos conformar-nos com menos, para honrarmos o sacrifício de todas e todos os que, há cinco décadas, não tinham quase nada, e lutaram para construir tudo. Temos de querer mais. Haverá sempre novos caminhos por abrir e desbravar. Com ambição, com confiança e sobretudo com determinação”, concluiu o jovem, que agradeceu “por estar aqui” nesta Assembleia comemorativa do 25 de Abril, em Oliveira do Hospital, o sítio de entre todos no Mundo, aquele onde se sente “melhor”. 

 

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