Manuel Pimentel é hoje um autarca desolado com o que aconteceu ao território, sobretudo com a devastação provocada pelo incêndio da semana passada na sua freguesia.
Volvidos oito anos do grande incêndio de 2017, o presidente da Junta de Freguesia de Avô entende que nada mudou, e se há oito anos as pessoas estiveram sozinhas, assim continuaram, no passado dia 14, quando o fogo vindo do Piodão, entrou descontrolado na vila.
“Estamos aqui hoje num dos cartões de visita de Avô – as Varandas de Avô – com uma paisagem terrível, que demonstra bem a inércia dos nossos governos, do atual Governo e de outros anteriores, que continuam a brincar com as pessoas do interior. É uma tristeza, já em 2017 tínhamos sido esquecidos e em 2025 continuamos esquecidos”, observa o autarca, que agradece aos populares por, mais uma vez, terem lutado contra as chamas porque “senão assim não fosse, as coisas teriam ardido muito mais”.
Contrariamente a 2017, o autarca lembra que, desta vez, até havia bombeiros no terreno, só que “estavam parados” e não ajudaram as populações no combate, encontrando-se sob as ordens de um Comando Operacional que estava instalado “algures num estacionamento em Oliveira do Hospital debaixo de ar condicionado”, constata, visivelmente revoltado.
“As ordens deviam ser: deixem arder, tirem as pessoas das casas e deixem arder, o que é certo é que quando as pessoas não saíram das casas, as casas estão em pé, se tivessem saído, hoje teríamos muitas casas ardidas”, refere o presidente da Junta de Avô, a lamentar a falta de meios no terreno, sublinhando que só quando houve bombeiros locais é que o ataque foi feito com eficácia. “Quando há incêndios em Lisboa, também não somos nós que vamos lá mandar” entende o autarca que, não querendo “imitar” o presidente da Câmara Municipal que avisou para esta ‘merda’, diz, porém, que ” é uma grande vergonha o que se passou aqui”. Sem meios de combate e praticamente entregues a si próprios, o autarca lamenta ainda a postura dos governantes, que só aparecem quando “há mortes e funerais” , já que no decurso do fogo “vamos ter a imagem deles na praia ou em festas”.
“A vergonha é essa, é não virem e não estarem, com certeza que se este incêndio fosse na Comporta ou noutro sítio qualquer o resultado seria bem diferente e a intervenção também”, nota o autarca de Avô, para quem este fogo “não faz sentido e teve todas as condições para ter sido morto à nascença, no Piodão, caso houvesse meios e caso as pessoas que estão à frente percebessem alguma coisa disto”, observou ainda, julgando que este “é um atestado de incompetência” para os governantes.
Manuel Pimentel responde ainda aos que apelidam as gentes do interior de “coitadinhos”, lembrando que as pessoas que aqui vivem são ainda “mais fortes do que as outras”, porque são permanentemente “esquecidas”, nos fogos, na saúde e agora até na paisagem e no turismo que, em plena época alta, vai deixar de vir para a região. “Tínhamos os hoteis cheios, as praias cheias de turistas e claro essa gente foi-se toda embora no dia 15 e os que eram para vir já não vêm”, alerta o presidente da Junta, apelando aos governantes para visitarem a região e ajudarem a reerguê-la, uma vez mais, das cinzas.
