Então e os programas eleitorais?

Autor: Pedro Miguel Coelho *Jornalista do Jornal Expresso

Pedro Miguel Coelho

A pré-campanha vai decorrendo. Já contamos com dois debates, um a dois, entre os candidatos do PS e da coligação liderada pelo CDS, e um outro entre todos os cinco candidatos, embora claramente palco de uma luta que se fará de forma mais concreta entre três projetos políticos. Pelo meio, ficámos a saber que apenas um deles tem uma extensa lista telefónica que inclui pessoas de todos os partidos políticos, mas esta crónica não se vai dedicar a, passe o pleonasmo, debater o debate. 

Enquanto eleitor, no entanto, sinto que faltou futuro a estes confrontos de ideias: foram sobretudo para discutir o trabalho que foi feito pelo PS na autarquia ao longo dos últimos anos, numa lógica de ataque por parte da oposição e defesa por parte de José Francisco Rolo, e pouco sobre propostas futuras concretas ou uma visão clara do que poderá vir aí para o concelho.

Acredito que essa ausência de futuro da discussão tem como raiz um problema-base: nenhuma das candidaturas tornou ainda público o seu programa eleitoral, o que limita o trabalho de escrutínio dos jornalistas e dos outros candidatos. Isto apesar de todos os candidatos já terem lançado, ocasionalmente, ideias avulsas sobre o que gostariam de fazer, ou um conjunto de princípios políticos. Sabe a pouco.

O conjunto de bases gerais que tem sido apresentado pelas candidaturas à Câmara Municipal não pode, nem deve, substituir um documento estruturado e claro sobre as propostas e prioridades que cada um considera fundamentais, e como lá chegar de forma concreta. Por exemplo: todos concordamos que é necessário ordenamento florestal, ou políticas de regeneração florestal, mas como é que cada candidatura interpreta os poderes que a autarquia tem nesse sentido, e o que é que propõe, passo a passo, para resolver o problema?

Matérias fundamentais, como a organização interna da autarquia, que não podemos discutir só em termos políticos e programáticos, mas também enquanto serviço público, ou a estrutura de distribuição de pelouros que acontecerá, são matérias que podiam e deviam ser clarificadas à partida, só para dar mais dois exemplos de “matéria funcional”. Este esclarecimento seria excecionalmente bem-vindo na fase anterior aos debates, para aí obter respostas conclusivas. Mas, nada a fazer, agora esse barco já partiu.

Debateu-se sem programas eleitorais em cima da mesa e já não há nada a chorar sobre esse leite derramado, mas nada temam: até às eleições temos três semanas e parece-me que seria bom para todos, em particular tendo em conta a transparência e verificação futura do cumprimento das promessas, que os programas sejam tornados públicos e fiquem consultáveis.

Antes de prosseguir neste tema quero, no entanto, fazer um destaque pela positiva a algumas candidaturas a juntas de freguesia, de vários quadrantes políticos, que, nos seus meios próprios e fazendo uso das redes sociais, têm publicado propostas de forma mais clara e estruturada, numa abordagem direta a problemas de cada uma das suas terras.

Em alguns municípios já foi acrescentada, à figura do programa eleitoral, um programa resumido, que facilita a acessibilidade e a leitura de um documento que é habitualmente extenso, estruturando-o de forma mais sucinta.

Caros candidatos, para vos poupar trabalho numa época em que todos estamos habituados a ver vídeos de 90 segundos ou menos: o fundamental nestes documentos é que deixem de lado as grandes proclamações ideológicas e se orientem para projetos e ideias palpáveis – é preciso diagnosticar, criticar até, mas sem perder de vista algo primordial: soluções que contribuam para resolver ou mitigar os problemas, sem rodeios.

A crítica pela crítica pode ser rentável eleitoralmente ou nas redes sociais, mas a seriedade de uma candidatura também se mede pelo compromisso que tem com esta palavra que muito repito: as soluções. De que me serve votar em alguém que só me apresenta problemas?

Bem sei que a velha política se constrói em cima de dados adquiridos, nomeadamente: que as pessoas não leem nem querem saber dos programas eleitorais, que não ligam aos debates, e que votam por outros motivos que não os mais racionais ou argumentativos, nomeadamente: afinidade, simpatia ou antipatia com as pessoas candidatas, motivos de natureza socioeconómica e a identificação partidária ou ‘clubística’. No entanto, e tendo por base toda esta informação, todos concordaremos que a política (e os partidos) não se tornarão melhores se os próprios eleitos e candidatos, ou até os eleitores mais conscientes, desistirem dela.

A política faz-se de propostas, de debate e discussão para alcançar concretizações coletivas, e as pessoas votam nas pessoas em quem confiam para resolver a vida delas e pôr soluções em prática.

Para o fazer é necessário tê-las pensadas e planeadas, é preciso ter uma visão para o território, e a capacidade de partilhar essa visão de forma clara, assertiva e tangível. E isso tem de ser feito para além da comunicação avulsa nas redes sociais ou em momentos fortuitos de contacto com a população. Lamento se sou um tradicionalista, mas acredito que se faz da formalidade de um programa eleitoral – que vai não só informar o eleitor, mas também permitir ao político assumir um compromisso claro e estruturar o seu próprio pensamento.

Fazendo uma metáfora propositadamente simplista, este documento será um pouco como as listas que todos fazemos para organizar o nosso trabalho, a nossa agenda ou até a lista de compras: não é que não saibamos o que queremos ou temos para fazer, mas essas listas ajudam-nos a não perdermos de vista o “panorama geral” e a não deixar nada para trás. É um contrato de confiança entre quem se candidata e quem vota: porque o eleitor pode passar cheques em branco, é livre de o fazer, mas não deveria ser colocado nessa situação por aqueles que o querem representar. É um mau princípio, ou como se diz agora: uma red flag.

Uma democracia mais madura, mais construtiva e mais participada depende da nossa exigência enquanto cidadãos. Dito isto: senhores candidatos, nós conhecemos-vos e não duvidamos da vossa honestidade e simpatia, mas façam o favor de publicar os vossos programas eleitorais, porque isto é um tema sério e merece ser tratado como tal.

 

Texto escrito a 23 de setembro de 2025.

 

Exit mobile version